Café em cápsulas chega a quase R$ 408 o quilo, aponta levantamento da Abic

Preço do café em cápsulas segue entre os mais altos do setor
O quilo do café em cápsulas atingiu, em média, R$ 407,96 em agosto deste ano, de acordo com levantamento da Associação Brasileira da Indústria de Café (Abic). O valor representa uma pequena retração de 1,39% em relação ao mesmo mês do ano anterior, quando o preço médio estava em R$ 413,73 o quilo.
Mesmo com essa leve queda, o produto continua entre os formatos mais caros disponíveis ao consumidor brasileiro. A diferença se torna mais evidente quando o valor é comparado a outros tipos de café industrializado, como o solúvel, que também integra a pauta de exportações do país.
Uma tecnologia criada há quase cinco décadas
Apesar de ter ganhado força nos últimos anos, o café em cápsulas não é um lançamento recente. A ideia surgiu na década de 1970, desenvolvida pelo engenheiro suíço Eric Favre, que na época trabalhava na Nestlé e buscava uma forma de otimizar o preparo da bebida.
O processo consistia em utilizar água sob alta pressão para atravessar o café moído, que ficava compactado e protegido do contato com o oxigênio dentro da cápsula. Essa combinação de fatores foi responsável por garantir uma extração mais uniforme e preservar características sensoriais do produto.
Depois de diversos testes e ajustes, Favre apresentou, em 1986, a primeira máquina de café em cápsulas sob a marca Nespresso. A partir desse lançamento, o modelo de consumo se espalhou e passou a ser adotado por diferentes companhias ao redor do mundo.
Hoje, o formato está presente no portfólio de marcas como Starbucks, Três Corações e Dolce Gusto, entre outras que disputam espaço nesse segmento específico do mercado de café industrializado.
Quanto custa, na prática, uma caixa de cápsulas
Considerando o preço médio levantado pela Abic, uma caixa com dez cápsulas, cada uma contendo cerca de seis gramas de café, custa aproximadamente R$ 24,50. Isso equivale a um gasto médio de R$ 2,45 por unidade consumida.
Quando esse valor é projetado para uma quantidade maior, como uma saca de 60 quilos, o resultado chama atenção: o café em cápsulas chegaria a custar cerca de R$ 24,5 mil. Já o café solúvel, nas mesmas condições, ficaria em torno de R$ 12,2 mil.
A diferença entre os dois formatos ultrapassa R$ 12 mil para a mesma quantidade de café, evidenciando o quanto o processo de industrialização e a tecnologia empregada impactam o valor final pago pelo consumidor.
O que explica o preço elevado das cápsulas
Segundo Eduardo Carvalhaes, analista especializado no mercado de café, o valor cobrado pelas cápsulas não se resume ao custo da matéria-prima utilizada. Ele explica que o preço final incorpora diversas etapas que vão além do grão em si.
De acordo com o analista, fazem parte dessa composição o material da cápsula, o desenvolvimento das máquinas específicas para o preparo da bebida e os processos de industrialização e comercialização envolvidos até o produto chegar às prateleiras.
Para ilustrar esse raciocínio, Carvalhaes faz uma comparação com o preço de um café servido em padarias. Segundo ele, o valor cobrado também não reflete apenas o custo do pó utilizado, mas engloba despesas como aluguel e salários dos funcionários envolvidos na operação.
O especialista reforça que essa lógica se aplica a diversos produtos que passam por múltiplas etapas de transformação antes de chegar ao consumidor final. Segundo ele, o preço final soma o custo da matéria-prima ao valor agregado em cada fase do processo produtivo e comercial.
Agregação de valor e presença internacional
Carvalhaes também relaciona o debate sobre o preço das cápsulas a um desafio mais amplo enfrentado pela cadeia produtiva do café no Brasil: a dificuldade de transformar a produção em produtos industrializados com maior valor agregado.
O país ocupa a posição de maior produtor e exportador de café do mundo, mas, segundo o analista, não possui marcas nacionais de café industrializado com relevância expressiva no mercado internacional. Para ele, essa lacuna vai além do segmento de cápsulas.
Carvalhaes avalia que a questão está ligada a fatores culturais do setor produtivo brasileiro, que historicamente concentra esforços na exportação da matéria-prima, mas enfrenta dificuldades para consolidar marcas próprias nas etapas seguintes da cadeia.
Segundo ele, o caso das cápsulas apenas torna mais visível um fenômeno que já existe em outros segmentos do mercado cafeeiro. A ausência de marcas brasileiras reconhecidas internacionalmente, de acordo com o analista, reflete um padrão mais amplo de baixa agregação de valor ao longo da cadeia produtiva nacional.