Estiagem prolongada reduz produção de macaxeira e eleva preço da farinha em Roraima

Seca afeta produtores de macaxeira no interior de Roraima
A estiagem prolongada que atinge Roraima tem comprometido o cultivo de macaxeira e, por consequência, a produção de farinha, um dos alimentos mais tradicionais e consumidos na região Norte do país. A falta de chuvas regulares tem prejudicado diretamente o desenvolvimento das plantações, reduzindo a produtividade e, em alguns casos, levando produtores a interromper completamente suas atividades até que o cenário climático se normalize.
No município de Iracema, ao sul do estado, o produtor rural Jair Mota, de 63 anos, é um dos agricultores atingidos pela seca. Há cerca de três anos dedicado ao cultivo de mandioca, ele precisou suspender temporariamente a produção de farinha devido aos efeitos da falta de chuva sobre suas plantações.
Segundo o produtor, a previsão é retomar a colheita apenas entre os meses de março e maio de 2027, período em que se espera a volta das chuvas na região. Até lá, a atividade permanece paralisada, sem previsão de nova produção.
Impacto se estende a outros produtores rurais
Jair Mota relata que a situação não é isolada e afeta diversos outros agricultores que vivem em lotes rurais no interior de Roraima. De acordo com ele, a escassez de chuvas dificulta não apenas o plantio e a colheita, mas também compromete a criação de animais em propriedades rurais da região.
Em algumas localidades, a irrigação tem sido utilizada como alternativa para amenizar os prejuízos causados pela seca. No entanto, essa solução não está disponível para todos os produtores, o que amplia as desigualdades entre quem consegue manter parte da produção e quem precisa interromper completamente as atividades agrícolas.
Para manter a renda durante o período sem produção de mandioca, Jair Mota recorre a outras frentes de negócio. Segundo ele, é necessário buscar alternativas financeiras que não estejam diretamente ligadas à agricultura para garantir a sobrevivência durante os meses mais secos.
Indústria de farofa sente reflexos da estiagem
A escassez de matéria-prima também impacta empresas que dependem da farinha de mandioca para a fabricação de produtos derivados. É o caso da empresa Sabor do Norte, especializada na produção de farofa, administrada pelo empresário João Botelho, de 35 anos, em Boa Vista.
A empresa compra farinha amarela de mandioca proveniente do Amazonas, que é processada na fábrica local com adição de ingredientes naturais antes de ser torrada e embalada. O negócio trabalha com diferentes linhas de produtos, incluindo versões tradicionais e a farofa conhecida como ovinha, disponível nos sabores manteiga, pimenta Uarini e bacon.
Os produtos da marca são distribuídos em 14 dos 15 municípios de Roraima, com exceção de Uiramutã, além de serem comercializados também em São Paulo e Santa Catarina. A empresa ainda realiza exportações para os Estados Unidos, ampliando o alcance de um alimento com forte valor cultural na região amazônica.
A produção diária da fábrica varia entre 400 e 500 unidades de farofa, utilizando aproximadamente 300 quilos de farinha por dia. Com funcionamento de segunda a sexta-feira, a empresa produz em média 2,5 mil unidades por semana, volume que depende diretamente da disponibilidade e do preço da matéria-prima.
Custos de produção sobem com encarecimento da farinha
Segundo João Botelho, mesmo mantendo um estoque elevado como estratégia para enfrentar o período tradicional de estiagem no fim do ano, a intensidade da seca atual superou as expectativas do setor produtivo. O empresário afirma que pretende manter os preços atuais dos produtos até fevereiro de 2027, enquanto aguarda uma estabilização do clima na região.
De acordo com ele, o custo da tonelada de farinha, que antes girava em torno de R$ 6,7 mil, passou a variar entre R$ 9 mil e R$ 10 mil, chegando a atingir R$ 12 mil em determinados momentos. O aumento expressivo reflete tanto a queda na produção quanto as dificuldades logísticas enfrentadas para o transporte do produto.
Botelho explica que a baixa dos rios no Amazonas, estado de origem da farinha comercializada por sua empresa, encarece significativamente o frete da matéria-prima. Segundo ele, embora Roraima ainda tenha participação reduzida na produção nacional de farinha, o maior impacto nos preços vem justamente do custo elevado do transporte fluvial durante períodos de seca.
El Niño intensifica efeitos da estiagem sazonal
De acordo com o Observatório da Indústria da Federação das Indústrias do Estado de Roraima (Fier), o custo do frete no estado pode ficar até 50% mais caro entre o fim de 2026 e o início de 2027, em razão dos efeitos do fenômeno climático El Niño sobre a região Norte.
João Botelho destaca que a elevação sazonal do preço da farinha, provocada pela baixa dos rios amazônicos entre outubro e dezembro, é um fenômeno recorrente todos os anos. No entanto, segundo ele, a atuação do El Niño neste período intensificou tanto a seca dos rios quanto a redução da produção agrícola, resultando em um aumento mais acentuado do que o observado em anos anteriores.
O El Niño é caracterizado pelo aquecimento anormal das águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial, fenômeno que altera padrões climáticos em diversas regiões do planeta. As projeções indicam que ele deve se intensificar ao longo do segundo semestre de 2026 e pode persistir até o início de 2027, contribuindo para períodos mais secos e quentes em Roraima, além de alterar o regime de chuvas e aumentar o risco de incêndios florestais na região.
Preços sobem nos mercados de Boa Vista
Os efeitos da estiagem já se refletem diretamente nos preços praticados nos mercados da capital roraimense. De acordo com dados da Secretaria de Planejamento e Orçamento de Roraima (Seplan), o preço da mandioca subiu 5,7% em setembro, atingindo R$ 35 o pacote de 6 quilos em Boa Vista.
A farinha também registrou alta no período, com aumento de 3,06%, alcançando o valor de R$ 22,23 por 3 quilos. Em um cenário mais amplo, levantamentos indicam que o preço do quilo da farinha nos supermercados da capital chegou a subir 71,4%, refletindo a combinação entre menor oferta local e encarecimento do transporte vindo do Amazonas.
A previsão meteorológica para as próximas semanas não indica melhora significativa no quadro de chuvas. Segundo o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), as precipitações devem continuar escassas e mal distribuídas pelo menos até o fim de outubro, mantendo o cenário de preocupação para produtores rurais e empresas que dependem da cadeia produtiva da mandioca em Roraima.