agricultura

Ferrugem asiática avança 277% em lavouras de soja no Paraná e São Paulo

Por: Redação Valores Agro
11 de outubro de 2026
Ferrugem asiática avança 277% em lavouras de soja no Paraná e São Paulo

Crescimento expressivo da doença preocupa produtores

Um levantamento conduzido pela Fundação ABC, instituição de pesquisa mantida pelas cooperativas Frísia, Castrolanda e Capal, revelou um salto significativo na incidência da ferrugem asiática da soja em áreas monitoradas no Paraná e em São Paulo. Os dados mostram um crescimento de 277% em comparação à safra anterior, um número que acende sinal de alerta entre produtores que iniciam o plantio da nova temporada.

Segundo a pesquisa, a incidência da doença saltou de 12,5% em setembro de 2025 para 47,2% no mesmo período de 2026, representando um avanço de 34,7 pontos percentuais. O resultado reflete diretamente as condições climáticas atípicas observadas nos últimos meses, associadas ao fenômeno El Niño, que tem alterado o regime de chuvas e temperaturas na região Sul e Sudeste do país.

El Niño favorece sobrevivência do fungo

De acordo com Giovanni Kochinski, pesquisador da Fundação ABC, o contraste entre as duas safras é expressivo e deve impactar diretamente o planejamento dos produtores. Segundo ele, a pressão de inóculo enfrentada neste ciclo é muito superior à registrada na safra passada, o que exige atenção redobrada desde os primeiros estágios da lavoura.

Um dos fatores apontados para explicar o fenômeno é a ocorrência de geadas mais fracas durante o período de vazio sanitário, etapa em que normalmente as plantas de soja remanescentes de ciclos anteriores — presentes em beiras de estrada, barrancos e cercas — morrem naturalmente com o frio. Com geadas menos intensas, essas plantas sobreviveram, permitindo que o fungo causador da ferrugem permanecesse ativo e migrasse para as lavouras comerciais da safra 2026/27.

Além da sobrevivência do hospedeiro, as condições climáticas trazidas pelo El Niño, caracterizadas por maior frequência de chuvas e umidade elevada, criaram um ambiente favorável à proliferação dos inóculos iniciais do patógeno. Essa combinação de fatores resultou no cenário de maior pressão da doença identificado pelos pesquisadores.

Manejo preventivo se torna prioridade

Diante do quadro observado, a principal recomendação da Fundação ABC aos produtores é reforçar a atenção às janelas de aplicação de fungicidas. Kochinski explica que, com a previsão de volumes maiores de chuva nos próximos meses, há risco real de que os intervalos recomendados entre aplicações não sejam respeitados, deixando as plantas vulneráveis ao avanço da doença.

O cenário ideal para controle da ferrugem envolve a aplicação do fungicida em dias de sol, com reaplicação prevista para até 14 dias depois. No entanto, a intensificação das chuvas pode forçar a extensão desse intervalo, abrindo brechas para que o fungo se desenvolva sem o devido controle.

Outro ponto técnico destacado pelo pesquisador é a necessidade de um período mínimo entre a aplicação do produto e a ocorrência de chuva, que deve ser de seis a oito horas para garantir a eficácia do fungicida. Segundo ele, investir em produtos de qualidade e estar preparado para reduzir os intervalos entre aplicações, quando necessário, são medidas fundamentais para conter a evolução da doença.

Mapeamento identifica focos da doença antes do plantio comercial

O monitoramento realizado pelo setor de Fitopatologia da Fundação ABC ocorreu entre os dias 18 e 24 de setembro, em plantas de soja guaxa e perene. A análise identificou focos do patógeno com mais de 10% de severidade em municípios como Itaberá, Itapeva e Itaporanga, em São Paulo, além de Sengés, Carambeí, Imbituva e Teixeira Soares, no Paraná.

Para Kochinski, o dado mais relevante do levantamento é que o inóculo já circula na região antes mesmo do estabelecimento das lavouras comerciais. Segundo o pesquisador, essa constatação reforça a necessidade de um manejo preventivo desde o início do ciclo produtivo, e não apenas após o surgimento dos primeiros sintomas visíveis na lavoura.

Produtores ajustam estratégias para a nova safra

No campo, produtores já adaptam suas rotinas para lidar com o cenário mais desafiador. Geraldo Morsink, que cultiva soja em cerca de 230 hectares em Piraí do Sul, nos Campos Gerais do Paraná, afirma estar preparado para enfrentar a pressão da ferrugem asiática mantendo a produtividade conquistada na safra anterior, quando obteve média de 87 sacas por hectare.

Segundo o produtor, embora a ameaça do El Niño gere preocupação, os cuidados preventivos e o acompanhamento constante das informações técnicas repassadas pela Fundação ABC fazem parte da rotina de manejo. Mesmo diante dos preços elevados de insumos e fertilizantes, Morsink afirma não economizar na aquisição de fungicidas, item considerado essencial para garantir a proteção da lavoura.

Já o produtor Leendert de Geus, de Tibagi, enfrenta atraso no plantio de sua área de 700 hectares devido ao excesso de chuvas, que dificultam os tratos culturais necessários antes da semeadura, como o controle de ervas daninhas. Até o momento, apenas uma parte da área planejada foi semeada.

Como estratégia para reduzir os riscos da doença, De Geus optou por antecipar o plantio, utilizando variedades de ciclo precoce na tentativa de escapar das chuvas mais intensas previstas para o fim do ciclo produtivo. O produtor também se prepara para utilizar aplicações aéreas por meio de drones, de forma a manter os intervalos recomendados entre as aplicações de fungicida mesmo em dias chuvosos.

Perdas podem chegar a 80% sem controle adequado

A gravidade da ferrugem asiática é reforçada pelo alerta de Kochinski sobre o potencial de dano da doença. Segundo o pesquisador, sem controle adequado, a ferrugem pode comprometer até 80% da produtividade de uma lavoura de soja, o que reforça a urgência das medidas preventivas recomendadas pela Fundação ABC.

Com base nas previsões climáticas associadas ao El Niño, o pesquisador projeta que a evolução da doença nesta safra deve ocorrer de forma mais precoce em comparação aos ciclos anteriores. Esse cenário exige dos produtores planejamento antecipado, monitoramento constante das lavouras e flexibilidade para ajustar as estratégias de manejo conforme a evolução das condições climáticas ao longo dos próximos meses.

Agricultura

Página 1

Nenhuma notícia encontrada nesta categoria.