Levantamento do INEGI expõe vulnerabilidade climática e envelhecimento no campo mexicano

Diagnóstico amplo do setor agropecuário
O Instituto Nacional de Estatística e Geografia (INEGI), do México, divulgou os resultados da Pesquisa Nacional Agropecuária (ENA) 2025, levantamento que traça um panorama detalhado sobre produção, infraestrutura, uso de insumos e condições sociodemográficas das unidades agrícolas e pecuárias do país. O estudo reúne informações estatísticas básicas, tanto em nível nacional quanto estadual, sobre as espécies agrícolas e pecuárias consideradas estratégicas para a formulação de políticas públicas e para pesquisas acadêmicas voltadas ao setor rural.
Os dados reunidos pela pesquisa revelam um campo marcado por contrastes importantes. Enquanto cultivos tradicionais, como o milho branco, continuam sustentando o abastecimento interno de alimentos, e a avicultura apresenta sinais claros de expansão, o setor convive com desafios estruturais antigos. Entre eles estão o envelhecimento acelerado da população produtora, as persistentes desigualdades de gênero na posse da terra e na remuneração do trabalho jornaleiro, além de uma economia rural que ainda depende fortemente do trabalho familiar não remunerado.
Dependência das chuvas expõe produtores a riscos climáticos
Segundo a ENA 2025, a superfície agrícola vinculada a unidades de produção no México somava 22.922.792 hectares. Desse total, 72,1%, equivalente a 16.529.668 hectares, não conta com nenhuma infraestrutura de irrigação e depende inteiramente do regime de chuvas para o desenvolvimento das lavouras. Essa característica deixa a maior parte das áreas agrícolas exposta diretamente aos efeitos das mudanças climáticas, como períodos prolongados de seca e a irregularidade cada vez mais frequente dos ciclos pluviométricos.
A consequência prática dessa vulnerabilidade aparece em outro dado da pesquisa: 58,2% das unidades de produção agropecuária relataram ter sofrido perdas decorrentes de algum fator climático ao longo do período avaliado. A seca foi apontada como a principal causa dessas perdas, respondendo por 36,8% dos casos, seguida por ventos fortes, inundações, geadas, granizo, furacões e incêndios de origem natural, fatores que, somados, evidenciam a fragilidade estrutural do sistema produtivo diante de eventos extremos.
Milho branco segue como pilar da produção de alimentos
Mesmo em um cenário de custos de produção crescentes e de maior exposição a riscos climáticos, o milho grão branco manteve-se como o principal eixo da agricultura mexicana em 2025, com produção estimada em 20,4 milhões de toneladas. O grão segue liderando a produção de alimentos básicos cultivados a céu aberto, reforçando sua importância tanto para a segurança alimentar quanto para a estrutura econômica de milhares de unidades produtivas espalhadas pelo território nacional.
Uso intensivo de fertilizantes químicos no campo
A pesquisa também revelou uma dependência marcante de insumos sintéticos entre os produtores. Quase oito em cada dez unidades agrícolas que operam a céu aberto declararam utilizar fertilizantes químicos em suas lavouras, uma preferência que supera amplamente o uso de adubos orgânicos e biofertilizantes. No total, o volume de fertilizantes químicos aplicados em 2025 chegou a 4,6 milhões de toneladas, reforçando o padrão produtivo baseado em insumos industriais.
Entre os produtos mais utilizados, a ureia aparece em primeiro lugar, tendo sido aplicada em 9,8 milhões de hectares. Em seguida está o fosfato diamônico, presente em 4,2 milhões de hectares, e o sulfato de amônio, utilizado em 1,4 milhão de hectares. Esses números confirmam a centralidade dos fertilizantes nitrogenados e fosfatados na estratégia produtiva da maior parte das unidades agrícolas mexicanas.
Sementes: tradição convive com tecnologia
No que diz respeito ao uso de sementes, a pesquisa mostra realidades distintas conforme o tipo de cultivo. Culturas básicas e de alto consumo popular, como arroz, feijão, aveia forrageira, cevada e as diferentes variedades de milho, continuam dependendo majoritariamente de sementes crioulas, mantendo um vínculo forte com práticas tradicionais de cultivo transmitidas entre gerações de produtores.
O cenário muda quando se observa a soja, cultivo em que os produtores demonstraram clara preferência por sementes melhoradas. Já no caso do trigo grão e do sorgo grão, a escolha recaiu, de forma geral, sobre sementes registradas ou certificadas. Para o sorgo forrageiro, a distribuição entre os diferentes tipos de semente mostrou-se mais equilibrada, sem uma preferência dominante.
Avicultura em expansão, outros rebanhos em retração
A comparação entre os dados da ENA 2025 e os do Censo Agropecuário de 2022 mostra uma mudança relevante na composição da pecuária mexicana. A população de aves de corral cresceu de 522,4 milhões para mais de 611,3 milhões de animais, impulsionada pela demanda crescente por carne de frango e ovos, consolidando a avicultura como um dos segmentos mais dinâmicos do setor.
Em contrapartida, o rebanho bovino registrou leve redução, somando 24 milhões de cabeças, movimento semelhante ao observado entre os suínos, que totalizaram 15,3 milhões de animais. Ovinos, caprinos e colmeias também apresentaram queda em seus inventários, sugerindo um reposicionamento da pecuária mexicana em direção a cadeias produtivas de ciclo mais curto, como a avícola.
Trabalho familiar não remunerado sustenta a produção
Um dos aspectos mais sensíveis revelados pela pesquisa diz respeito à composição da mão de obra permanente nas unidades agropecuárias. Do total de 13.311.924 pessoas registradas nessa condição, a grande maioria, 7.053.007 indivíduos, são familiares da pessoa produtora que não recebem salário fixo pelo trabalho realizado. Esse dado evidencia que a viabilidade econômica de boa parte das unidades produtivas ainda depende fortemente do trabalho não remunerado dentro do núcleo familiar.
Jornada rural e disparidade salarial entre homens e mulheres
Em relação à mão de obra temporária, a ENA 2025 registrou 17.780.345 postos de trabalho ocupados por pessoas jornaleiras, dos quais 14,3% corresponderam a mulheres e 85,7% a homens. Dados do Censo Agropecuário de 2022 indicam que o valor médio pago pela jornada era de 201 pesos para mulheres e 228 pesos para homens, revelando uma diferença salarial persistente entre os gêneros no trabalho rural remunerado.
Mulheres no campo: presença ativa, mas pouca titularidade
Apesar de participarem ativamente das etapas produtivas, de transformação e da administração das unidades agropecuárias, as mulheres continuam enfrentando barreiras significativas quando o assunto é a titularidade legal da terra e a tomada formal de decisões dentro dessas unidades. A pesquisa reforça que essa disparidade reflete dificuldades estruturais no acesso à propriedade rural e ao crédito agrícola voltado às produtoras.
Envelhecimento da população produtora acende alerta
O perfil etário das pessoas responsáveis pela administração das unidades de produção reforça um cenário de envelhecimento acentuado no campo mexicano. Mais da metade dos produtores, 52,1%, está concentrada na faixa de 46 a 65 anos, enquanto os adultos acima de 66 anos somam 28,7% do total. Já a presença de gerações mais jovens é praticamente residual: produtores entre 19 e 30 anos representam apenas 2,8%, e os menores de 18 anos somam 0,01%, um indicativo claro da ausência de renovação geracional no setor.
Tomados em conjunto, os resultados da ENA 2025 compõem um retrato detalhado das transformações e dos desafios enfrentados pelo campo mexicano. A combinação entre vulnerabilidade climática, dependência de insumos químicos, desigualdades de gênero e envelhecimento da força de trabalho aponta para a necessidade de políticas públicas que considerem simultaneamente a modernização produtiva e a sustentabilidade social do setor agropecuário no médio e longo prazo.