Museu Etnográfico da Cantábria resgata tradições rurais em antiga casa do século XVII

Um espaço dedicado à memória rural
Localizado em Muriedas, nas proximidades de Santander, o Museu Etnográfico da Cantábria ocupa uma construção do século XVII que foi a casa natal de Pedro Velarde. A diretora da instituição, Amparo López Ortiz, recebe os visitantes em um ambiente que combina arquitetura histórica e memória popular, com destaque para a ermida e o hórreo que compõem a paisagem externa do local.
O museu se propõe a ser um território onde o tempo parece suspenso, permitindo que o passado se manifeste de forma concreta diante de quem o visita. Para pessoas mais velhas, o espaço funciona como um gatilho de lembranças, remetendo a utensílios e ferramentas que faziam parte do cotidiano de suas famílias ou de gerações anteriores.
Ainda assim, a experiência não se restringe a um público específico. Crianças também encontram no museu uma forma de contato direto com ofícios tradicionais, como os que transformavam madeira em instrumentos de trabalho, leite em manteiga ou mel em um alimento valorizado nas mesas rurais.
Ferramentas e ofícios que contam uma história
Ao longo dos ambientes internos, instrumentos de lavoura e objetos relacionados aos ofícios regionais ocupam as paredes de cada cômodo. A exposição reconstitui um período anterior à mecanização, quando o trabalho manual e a artesania definiam a produção agrícola e doméstica.
Esse contraste entre o passado artesanal e o presente mecanizado convida à reflexão sobre a evolução das práticas rurais ao longo dos séculos. Técnicas de cerâmica, confecção têxtil e marcenaria também integram o acervo, evidenciando a diversidade de atividades que sustentavam a economia doméstica da região.
A casa, erguida no século XVII, preserva essas características arquitetônicas originais, o que reforça a atmosfera histórica proporcionada aos visitantes. Cada ambiente foi pensado para apresentar um recorte específico da vida cotidiana no meio rural cantábrico.
O cotidiano doméstico como protagonista
Uma das áreas mais apreciadas pelo público é a dedicada ao espaço do lar. Ali, estão expostos utensílios ligados ao fogo da lareira, pratos de cerâmica reservados para ocasiões especiais e coadores confeccionados com pelo animal, revelando soluções criativas para necessidades básicas do dia a dia.
Bancos que também funcionavam como mesas, dobráveis para otimizar o espaço reduzido das cozinhas, ilustram a praticidade exigida pelas famílias antes da popularização do mobiliário industrializado. Essas peças remetem a uma época em que o aproveitamento máximo dos recursos era uma necessidade constante.
Famílias com condições econômicas limitadas recorriam à criatividade para evitar qualquer tipo de desperdício, seja de alimentos, seja de madeira. As reuniões entre parentes e vizinhos tinham papel central nesse contexto, fortalecendo laços comunitários e garantindo apoio mútuo em tarefas cotidianas.
A religiosidade também ocupava lugar de destaque na vida doméstica, representada pela imagem da Virgem da capela domiciliária. Semanalmente, essa imagem era transferida para a casa de um membro diferente da família, reforçando o caráter coletivo das práticas religiosas locais.
A ala dedicada a Pedro Velarde
Por se tratar da casa natal de Pedro Velarde, uma das alas superiores do museu é reservada à sua memória. Esse espaço apresenta uma realidade distinta da vida rural retratada nos demais ambientes, voltada à representação da classe alta durante o século XVII.
Entre os destaques dessa área estão o dormitório atribuído à figura histórica, uma recriação de seu uniforme e um sillón frailero utilizado pela família em visitas à igreja. Secretárias talhadas com riqueza de detalhes complementam a ambientação, evidenciando o padrão de vida de setores mais abastados da época.
Ofícios tradicionais e economia regional
O percurso pelo museu também contempla atividades econômicas históricas da Cantábria, como a mineração e o aproveitamento da riqueza florestal, que forneciam materiais essenciais para a fabricação de utensílios utilizados no cotidiano rural.
Feiras e mercados têm espaço de destaque na exposição, assim como processos domésticos de produção alimentar, incluindo a matança do porco, a elaboração do pão, da manteiga, do queijo, do mel e do orujo. Esses processos ilustram a importância da autossuficiência nas comunidades rurais da região.
Os modos de vida agrícola, pastoril e pecuário aparecem representados por um amplo catálogo de objetos, que evidenciam a diversidade de práticas produtivas desenvolvidas ao longo de gerações. Essa diversidade também se reflete na presença de instrumentos musicais, jogos e expressões esportivas tradicionais, elementos que compõem o patrimônio cultural imaterial da Cantábria.
Acervo histórico e experiência para visitantes
O acervo do museu reúne objetos de diferentes períodos, abrangendo os séculos XVIII, XIX e XX. Essa variedade permite observar a evolução dos modos de vida no meio rural ao longo de diferentes épocas, destacando continuidades e transformações nas práticas cotidianas.
Além das visitas guiadas voltadas a pequenos grupos, a instituição oferece oficinas gratuitas que incluem, entre outras atividades, aulas de dança da jota e de execução da pandeireta. Essas iniciativas reforçam o compromisso do museu em manter viva a tradição cultural da região.
Ao reunir ferramentas, costumes e práticas econômicas de diferentes épocas, o espaço se consolida como referência para a compreensão da memória rural cantábrica, valorizando a artesania e os ofícios que moldaram a identidade cultural local.