Pesquisa brasileira busca tornar o pinus mais resistente às mudanças climáticas

Uma cultura consolidada no Sul do país
O pinus ocupa atualmente 1,9 milhão de hectares no Brasil, com concentração expressiva na região Sul, onde encontrou condições de clima e solo especialmente favoráveis ao seu desenvolvimento. A espécie, de origem norte-americana, foi introduzida no país há 120 anos e desde então se tornou matéria-prima estratégica para diversos segmentos industriais, como papel e celulose, painéis de madeira, fabricação de móveis, embalagens e geração de biomassa energética.
Ao longo das décadas, o cultivo do pinus no Brasil superou os índices de produtividade observados em sua região de origem. Enquanto nos Estados Unidos o rendimento médio gira em torno de 20 metros cúbicos por hectare ao ano, no território brasileiro esse número chega a 31,1 metros cúbicos por hectare anualmente, podendo atingir patamares de até 40 metros cúbicos em condições mais favoráveis.
Décadas de melhoramento genético
Esse salto de produtividade não ocorreu de forma espontânea. Até a década de 1970, a média de produção da árvore no Brasil era de apenas 18 metros cúbicos por hectare ao ano. O avanço expressivo registrado desde então é resultado de décadas de pesquisas voltadas ao melhoramento genético, à adaptação da espécie às condições locais e ao aprimoramento das técnicas de manejo florestal.
Entre as espécies cultivadas, destacam-se o Pinus taeda e o Pinus elliottii, que lideram os ganhos de produtividade e qualidade da madeira, principalmente na região Sul do país. Essas variedades se beneficiaram diretamente das condições edafoclimáticas da região, consideradas propícias ao desenvolvimento da cultura.
O novo desafio: adaptação climática
Com os efeitos das mudanças climáticas cada vez mais evidentes, pesquisadores da Embrapa Florestas, unidade localizada em Colombo, na Região Metropolitana de Curitiba, no Paraná, têm direcionado esforços para um novo objetivo: identificar materiais genéticos capazes de manter a produtividade da espécie mesmo diante de cenários climáticos mais adversos.
Segundo Ananda Aguiar, pesquisadora de melhoramento genético da instituição, o desafio atual é duplo. Por um lado, é preciso continuar elevando a produtividade do pinus. Por outro, torna-se necessário desenvolver materiais mais resistentes às variações climáticas, de modo a preservar uma base genética ampla que possa ser utilizada em cenários futuros ainda incertos.
As pesquisas voltadas ao melhoramento genético da espécie são conduzidas pela Embrapa desde a década de 1970, em parceria com empresas privadas do setor de papel e celulose, instituições de pesquisa florestal, universidades e cooperativas internacionais. Desde 2021, no entanto, uma frente específica de trabalho foi estruturada por meio do Projeto Cooperativo de Melhoramento Genético de Pinus, com foco justamente na adaptação da espécie às mudanças climáticas.
Metodologia de pesquisa em campo
Os estudos são conduzidos diretamente em áreas plantadas em diferentes regiões do país. Para avaliar a tolerância do pinus a fatores como geadas, temperaturas elevadas e períodos prolongados de seca, os pesquisadores optam por plantar mudas em locais onde a espécie historicamente não apresenta boa adaptação, permitindo observar seu comportamento sob condições de estresse.
De acordo com Aguiar, a integração entre dados genéticos, informações climáticas e características do solo, tanto das regiões de origem das sementes quanto dos locais de plantio, permite compreender de forma mais precisa a interação entre genética e ambiente. Essa abordagem possibilita identificar os fatores que mais influenciam a adaptação das árvores e orienta a seleção de materiais com maior tolerância a estresses climáticos.
O escopo das pesquisas não se limita ao pinus. Os trabalhos também abrangem o eucalipto, outra espécie relevante para o setor de florestas plantadas no Brasil. Além da questão climática propriamente dita, os pesquisadores investigam a relação entre eventos climáticos extremos e a ocorrência de pragas, como a vespa-da-madeira e as formigas cortadeiras, que podem se tornar mais frequentes em cenários de instabilidade climática.
Diferenças regionais no cultivo
A distribuição geográfica das florestas plantadas no Brasil apresenta particularidades que exigem abordagens distintas de pesquisa. Enquanto 89% dos plantios de pinus do país se concentram na região Sul, o cultivo de eucalipto tem maior presença na região Sudeste, responsável por 43% da área plantada, seguida pelo Centro-Oeste, com 22%.
Essa variação regional implica diferentes desafios climáticos para cada espécie e localidade. Segundo Ananda Aguiar, há grande variação entre as regiões, com episódios de chuvas intensas, alterações de temperatura e estiagens prolongadas, fatores que também favorecem a eclosão de novas gerações de insetos e, consequentemente, aumentam a pressão de pragas sobre as florestas plantadas.
Além dos aspectos produtivos e sanitários, as pesquisas também avaliam a contribuição ambiental do pinus, investigando de que forma a espécie pode colaborar para a mitigação dos gases de efeito estufa, tema que ganha relevância crescente no debate sobre sustentabilidade do setor florestal.
Impactos práticos para produtores
Os avanços obtidos nas pesquisas genéticas têm reflexo direto na atividade de produtores que trabalham com a cultura do pinus. Álvaro Scheffer Junior, diretor da Águia Florestal, empresa de plantio e industrialização de madeira sediada em Ponta Grossa, na região dos Campos Gerais do Paraná, relata que a produtividade das áreas da companhia evoluiu significativamente ao longo das décadas.
Quando as atividades da empresa começaram, na década de 1970, a produtividade girava em torno de 18 metros cúbicos por hectare ao ano. Atualmente, esse número ultrapassa os 40 metros cúbicos por hectare anualmente. A empresa mantém 10 mil hectares de plantio em uma área total de 24 mil hectares, sendo o restante destinado à preservação de floresta nativa. A produção anual gira em torno de 100 mil metros cúbicos de madeira serrada, destinados tanto ao mercado interno quanto ao externo, principalmente para o setor de construção civil.
Scheffer Junior, que integra o Fundo Cooperativo para Melhoramento de Pinus, observa que a mudança no regime de chuvas da região, que se tornou mais seca ao longo dos anos, provocou respostas adaptativas nas próprias árvores. Segundo ele, houve aumento na produção de sementes e aprofundamento do sistema radicular, como forma de a planta tentar garantir sua perpetuação diante das novas condições ambientais. Para o produtor, o principal desafio futuro será desenvolver materiais genéticos que aumentem o incremento médio anual das florestas sem comprometer a qualidade estrutural da madeira nem suas características físicas, como a aparência.
Alternativa para pequenos e médios produtores
O cultivo de pinus também é apontado como uma opção viável para pequenos e médios produtores rurais, especialmente em áreas com menor aptidão para atividades agrícolas convencionais. Edilson Oliveira, pesquisador de manejo de florestas da Embrapa, destaca que a produção florestal pode ser indicada para pastagens degradadas ou solos de menor fertilidade, funcionando como complemento de renda em áreas que, de outra forma, não seriam aproveitadas.
Entre as vantagens da atividade em relação às lavouras convencionais, Oliveira cita o baixo uso de defensivos agrícolas e a possibilidade de iniciar o plantio em pequenas áreas, tanto para uso próprio da madeira na propriedade quanto para produção em escala comercial futura. O pesquisador sugere, como ponto de partida, o plantio de cerca de 50 árvores por ano, com possibilidade de ampliação gradual da área cultivada ao longo do tempo, sem exigir grande demanda de mão de obra. Segundo ele, essa estratégia permite ao produtor se beneficiar futuramente com colheitas realizadas em ciclos, de acordo com a finalidade definida para a madeira.
Experiência de produtores familiares
O produtor Altair Cochinski, do município de Lapa, na Região Metropolitana de Curitiba, ilustra como a atividade florestal pode se integrar à rotina de propriedades rurais menores. Ele cultiva pinus em uma área de 2,42 hectares e realizou neste ano o segundo corte das árvores, após um ciclo de produção de 13 anos, com a madeira destinada a uma serraria da região.
Cochinski relata que já desenvolveu na propriedade atividades como pecuária de leite e de corte, além do cultivo de fumo, mas optou por substituí-las por atividades ligadas à restauração florestal, incluindo o cultivo de erva-mate, pinus e eucalipto. Segundo o produtor, a mudança trouxe menos demanda de trabalho diário, já que as espécies florestais exigem principalmente o acompanhamento do crescimento ao longo dos anos, funcionando como uma espécie de reserva de valor para o futuro.