Etanol hidratado recua após dois meses de alta, enquanto açúcar mantém trajetória de preços elevados

Etanol hidratado interrompe sequência de altas
As cotações do etanol hidratado voltaram a apresentar queda no mercado paulista, encerrando um período de quase dois meses de valorização contínua. O levantamento do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), vinculado à Esalq/USP, mostra que o indicador para o produto recuou na última semana analisada, revertendo parte do movimento de alta observado desde o final de julho.
De acordo com os dados divulgados pelo Cepea, entre os dias 21 e 25 de setembro o indicador do etanol hidratado ficou em R$ 2,5820 por litro, o que representa uma retração de 2,24% em comparação à semana imediatamente anterior. O resultado interrompe uma trajetória que vinha sustentando o produto em patamares mais elevados nas semanas recentes.
Segundo a análise dos pesquisadores, o movimento de baixa está diretamente relacionado à necessidade de caixa de algumas usinas, que precisaram acelerar a comercialização do produto estocado. Esse fator, somado à necessidade de abrir espaço nos tanques de armazenagem, contribuiu para pressionar os preços para baixo no curto prazo.
Por outro lado, as chuvas registradas recentemente em diversas regiões produtoras de cana-de-açúcar tiveram efeito oposto sobre a oferta. As precipitações levaram algumas unidades a restringir o volume de etanol disponibilizado ao mercado, o que atuou como um fator de contenção para uma queda mais acentuada nos preços.
Movimentação das distribuidoras e volume negociado
Diante desse cenário de instabilidade nos preços, parte das distribuidoras de combustíveis optou por uma postura mais cautelosa nas negociações. Essas empresas priorizaram a retirada de volumes que já haviam sido adquiridos em contratos anteriores, evitando novas compras imediatas e aguardando sinais mais claros sobre a direção dos preços no curtíssimo prazo.
Apesar da recente queda nas cotações, o volume de etanol hidratado negociado no mercado paulista segue em patamar elevado quando comparado ao histórico recente. Os dados do Cepea indicam que o volume médio semanal comercializado em setembro está 57,7% superior ao registrado no mesmo período do ano passado, evidenciando um mercado aquecido em termos de liquidez, mesmo com a oscilação nos preços.
Esse descompasso entre volume negociado e direção dos preços reflete a complexidade do mercado de etanol neste momento da safra, em que fatores climáticos, necessidades financeiras das usinas e comportamento das distribuidoras se combinam para definir o rumo das cotações no curto prazo.
Açúcar cristal segue em trajetória de alta
Enquanto o etanol hidratado apresentou correção nos preços, o cenário para o açúcar cristal branco seguiu na direção oposta. O indicador Cepea/Esalq para o produto, apurado na segunda-feira, dia 28 de setembro, registrou o valor médio de R$ 120,24 por saca de 50 quilos.
Esse patamar representa uma alta acumulada de 5,71% desde o início do mês de setembro, um avanço expressivo em um intervalo de tempo relativamente curto. Na comparação semanal mais recente, a cotação teve um incremento mais discreto, de 0,09%, sugerindo uma possível desaceleração no ritmo de valorização, embora a tendência geral ainda aponte para preços em elevação.
A principal explicação para esse comportamento está relacionada às condições climáticas enfrentadas pelas regiões produtoras do Centro-Sul do país, área responsável pela maior parte da produção brasileira de cana-de-açúcar. As chuvas registradas nas últimas semanas têm atrasado significativamente o ritmo da colheita, o que impacta diretamente a quantidade de açúcar disponível para comercialização.
Impactos das chuvas sobre a colheita e a oferta
O atraso na colheita da cana-de-açúcar provocado pelas precipitações tem efeito direto sobre a produção de açúcar nas usinas do Centro-Sul. Com menos matéria-prima sendo processada dentro do cronograma originalmente previsto, a quantidade de açúcar cristal produzida no período fica reduzida, criando um descompasso entre oferta e demanda no mercado interno.
Essa limitação na oferta é apontada pelos pesquisadores do Cepea como o principal fator de sustentação para os preços do açúcar nas últimas semanas. Com menor disponibilidade do produto circulando no mercado, os compradores encontram menos opções e acabam pressionando os valores para cima, mesmo em um cenário de demanda relativamente estável.
A situação evidencia como fatores climáticos podem alterar de forma significativa o equilíbrio entre oferta e demanda em commodities agrícolas, especialmente quando afetam etapas críticas do processo produtivo, como a colheita e o processamento industrial da cana-de-açúcar.
Projeções para a próxima safra são revisadas para baixo
Diante do cenário observado nas últimas semanas, as projeções para a produção de açúcar na safra 2026/27 no Centro-Sul do país também foram revisadas para patamares mais baixos. Segundo os pesquisadores do Cepea, essa redução nas estimativas está diretamente ligada ao impacto das chuvas sobre o cronograma de colheita e moagem da cana-de-açúcar.
Com uma produção de açúcar potencialmente menor nos próximos meses, a expectativa é de que a oferta do produto no mercado interno continue restrita por um período mais prolongado. Esse cenário tende a manter os preços em patamares elevados, sustentando a trajetória de alta observada desde o início de setembro.
Os analistas ressaltam que a combinação entre atraso na colheita, redução nas projeções de safra e manutenção de uma demanda estável forma um conjunto de fatores que deve continuar influenciando o comportamento dos preços do açúcar cristal nas próximas semanas, exigindo acompanhamento constante por parte de produtores, indústrias e compradores do setor sucroenergético.