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Expansão do etanol de milho esbarra em incerteza sobre demanda futura, aponta Bradesco

Por: Redação Valores Agro
29 de setembro de 2026
Expansão do etanol de milho esbarra em incerteza sobre demanda futura, aponta Bradesco

Oferta crescente, futuro incerto

O avanço das usinas de etanol de milho tem sustentado um ciclo de expansão na capacidade produtiva brasileira de biocombustíveis, mas essa trajetória levanta uma questão que ainda não tem resposta definitiva: quem consumirá esse volume adicional nos próximos anos. A avaliação é do especialista de agro do Bradesco — Pesquisa Econômica, Filipi Cardoso, que participou de um painel dedicado ao tema durante a 9ª Conferência NovaCana.

Segundo Cardoso, o setor vive um momento em que os investimentos em novas plantas seguem em ritmo acelerado, enquanto o mercado consumidor de combustíveis passa por transformações estruturais. Essa combinação exige, na visão do especialista, um olhar mais criterioso sobre a viabilidade de longo prazo dos projetos que estão sendo anunciados.

O dilema entre produção e consumo

A análise apresentada pelo Bradesco parte de uma constatação simples, mas estratégica: o crescimento da oferta de etanol não garante, por si só, a absorção total dessa produção pelo mercado. Cardoso destacou que, ao avaliar novos projetos, a pergunta central deixou de ser apenas sobre capacidade produtiva e passou a envolver o destino final do combustível.

Essa preocupação ganha relevância diante de duas tendências que caminham em paralelo. De um lado, a expansão das usinas de milho amplia significativamente a oferta de etanol no país. De outro, a eletrificação da frota de veículos avança em ritmo mais rápido do que se projetava até pouco tempo atrás, reduzindo a dependência dos motores a combustão interna.

O papel do etanol de milho na matriz nacional

De acordo com as projeções apresentadas, a produção de etanol de milho deve variar entre 12 bilhões e 13 bilhões de litros na safra 2026/27, com potencial de atingir entre 23 bilhões e 24 bilhões de litros até a safra 2035/36. Esse crescimento pode elevar a participação do milho para cerca de 42% a 43% da produção total de etanol no país, ainda com margem para produzir mais, caso existam condições favoráveis de preço e demanda.

Enquanto a produção a partir da cana-de-açúcar já conta com uma estrutura consolidada, na qual o clima representa o principal fator de instabilidade para a produtividade, o etanol de milho enfrenta um cenário diferente. Segundo Cardoso, o principal desafio nesse segmento é justamente dimensionar até onde a expansão pode avançar de forma sustentável.

Interiorização dos investimentos

Os aportes em novas plantas produtoras de etanol de milho não se concentram mais apenas no Centro-Oeste. Projetos têm sido direcionados também para regiões do Matopiba e do Sul do país, acompanhando o crescimento da produção de milho nessas áreas. Segundo o especialista, essa movimentação tende a reduzir custos logísticos associados ao abastecimento de etanol nessas regiões, tornando a distribuição mais eficiente.

Apesar desse ganho logístico, a ampliação geográfica da produção reforça a necessidade de encontrar novos mercados consumidores. As projeções indicam que o superávit de etanol deve crescer nos principais estados produtores até 2035, com destaque para Mato Grosso, onde esse excedente poderia se aproximar de 11 bilhões de litros.

Eletrificação avança mais rápido que o previsto

Do lado da demanda, Cardoso afirmou que o processo de eletrificação da frota brasileira tem evoluído em velocidade superior às estimativas feitas pelo banco há dois anos. As projeções atuais indicam que os veículos eletrificados, incluindo híbridos e híbridos plug-in, podem representar cerca de 50% das vendas de veículos novos a partir de 2030.

Em um horizonte de dez anos, a participação desses veículos na frota total circulante deve superar 30%. Entre os fatores que sustentam essa trajetória, o especialista citou a competitividade crescente das fabricantes chinesas, o lançamento de modelos mais acessíveis ao consumidor final e a possibilidade de redução das taxas de juros, o que tende a favorecer a renovação do parque automotivo nacional.

Impacto direto sobre o consumo de combustíveis

Segundo as estimativas apresentadas, o avanço da eletrificação pode representar uma redução potencial de até 12 bilhões de litros no consumo de combustíveis do ciclo Otto, categoria que inclui gasolina e etanol utilizados por automóveis. Esse cenário reforça a necessidade de o setor sucroenergético e o segmento de etanol de milho buscarem alternativas de consumo que não dependam exclusivamente do mercado automotivo tradicional.

O Bradesco ainda identifica espaço para o etanol hidratado ampliar sua participação, especialmente em regiões onde a produção está mais próxima dos centros consumidores. Ainda assim, esse avanço ocorreria em um contexto de mercado pressionado pela transição energética veicular, o que limita o potencial de crescimento apenas com base na substituição da gasolina.

Disputa por matéria-prima e custos de produção

Além do desafio de encontrar compradores para o etanol, as usinas também precisarão lidar com uma disputa mais acirrada por matéria-prima. No cenário de capacidade projetado para 2035, a demanda potencial de milho das usinas pode se aproximar de 95 milhões de toneladas, volume que coloca o setor em concorrência direta com outros grandes consumidores, como a pecuária e o mercado externo.

Segundo Cardoso, essa disputa deve pressionar os preços do grão ao longo do tempo, tanto pela demanda interna quanto pela procura internacional. Para manter o abastecimento das usinas, pode ser necessário oferecer um prêmio adicional para reter o milho no mercado doméstico, o que tende a reduzir a rentabilidade das plantas produtoras no longo prazo. O especialista ponderou, no entanto, que as receitas obtidas com coprodutos, como o DDG e o óleo de milho, também devem ser consideradas na equação econômica das empresas.

Alternativas para uma demanda mais previsível

Diante do cenário de incertezas ligado ao consumo veicular, Cardoso apontou dois segmentos com potencial para gerar uma demanda mais estável para o etanol: o transporte marítimo e o maquinário agrícola. No caso da navegação, um exercício apresentado pelo especialista indica que uma participação de 10% de etanol na matriz energética do setor poderia representar um consumo entre 3 bilhões e 4 bilhões de litros até 2035, considerando a equivalência energética do combustível.

Para que esse potencial se concretize, no entanto, são necessários avanços em regulamentação, infraestrutura de armazenagem e sistemas de mistura nos portos, além de projetos que ampliem a escala de utilização do etanol nesse segmento. Segundo o especialista, esse movimento depende de ações concretas por parte do setor produtivo e dos órgãos reguladores.

O potencial do etanol no campo

No ambiente agrícola, Cardoso destacou o desenvolvimento de máquinas movidas a etanol como uma alternativa relevante. Segundo suas estimativas, o setor agropecuário consome atualmente cerca de 6 bilhões de litros de diesel por ano. Em um cenário hipotético de substituição integral desse volume por etanol, o potencial de consumo se aproximaria de 11 bilhões de litros.

Além de ampliar o mercado consumidor do biocombustível, essa substituição poderia contribuir para a segurança do abastecimento energético no campo, reduzindo a exposição do setor agropecuário às oscilações do mercado de diesel. O especialista também mencionou o combustível sustentável de aviação, o SAF, como uma oportunidade adicional, ainda que situada em um horizonte mais distante, diante da necessidade de investimentos complementares em infraestrutura específica.

Planejamento de longo prazo como prioridade

Na avaliação de Cardoso, o desenvolvimento desses novos mercados consumidores daria às usinas condições mais sólidas de planejamento estratégico, reduzindo a dependência exclusiva da disputa com a gasolina pela preferência do consumidor. Essa diversificação de demanda seria fundamental para dar maior previsibilidade aos investimentos que continuam sendo direcionados ao setor de etanol de milho e de cana no país.

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