Possível avanço para E35 pode elevar consumo de etanol anidro em 2027, aponta consultoria

Projeção aponta crescimento expressivo do consumo de etanol anidro
O consumo de etanol anidro no Brasil pode registrar um crescimento significativo em 2027 caso a mistura de 35% de etanol na gasolina, conhecida como E35, entre em vigor a partir de agosto do próximo ano. Segundo levantamento da consultoria StoneX, esse avanço poderia representar um incremento de 1,2 bilhão de litros no consumo do biocombustível, equivalente a uma alta de 8,3% em relação ao volume projetado para 2026.
De acordo com o relatório, esse crescimento seria quase o dobro do volume adicional estimado em um cenário no qual a mistura atual, de 32%, seja mantida durante todo o próximo ano. A comparação evidencia o peso que a mudança regulatória pode ter sobre a demanda doméstica pelo produto, especialmente em um momento de reorganização do mercado de combustíveis leves no país.
Efeito sobre a importação de gasolina A
Enquanto o consumo de anidro tende a subir, a demanda por gasolina A importada apresentaria trajetória inversa. A StoneX estima uma redução de 1,1 bilhão de litros nas importações do produto em 2027, uma queda de 20,4% em relação ao volume esperado para 2026. Esse recuo equivaleria a aproximadamente um terço do total de gasolina A importada ao longo do ano.
Os números fazem parte de um cenário construído a partir de premissas específicas, como vendas de combustíveis do Ciclo Otto na ordem de 47,6 milhões de metros cúbicos em 2027, o que representaria uma alta de 0,3% sobre o ano anterior. A consultoria também considerou a manutenção da produção nacional de gasolina A no mesmo patamar registrado neste ano, de forma a isolar exclusivamente o efeito da mudança no percentual de mistura sobre os resultados projetados.
Comparação entre cenários de mistura
Com a adoção do E35, o consumo de etanol anidro passaria de 14,6 bilhões de litros em 2026 para 15,8 bilhões de litros em 2027. Já a demanda por gasolina A importada recuaria de 5,2 bilhões para 4,2 bilhões de litros no mesmo período, segundo as estimativas apresentadas pela consultoria.
A StoneX também avaliou um cenário alternativo, no qual o E32 permaneceria vigente durante todo o ano de 2027. Nessa hipótese, o consumo de anidro cresceria 597 milhões de litros, uma alta de 4,1%, enquanto a importação de gasolina A cairia 452 milhões de litros, recuo de 8,6%. Nesse caso, o aumento do consumo de anidro estaria relacionado exclusivamente ao crescimento projetado nas vendas de gasolina C ao longo do ano.
Contexto regulatório da mistura atual
A possibilidade de avanço para o E35 surge em um momento em que o mercado ainda está absorvendo os efeitos da elevação da mistura para 32%, implementada em agosto de 2026. Segundo o relatório, essa antecipação ocorreu em meio à alta do petróleo e da gasolina importada, provocada pelo conflito no Oriente Médio, com o objetivo adicional de reduzir o custo do combustível para o consumidor final.
A legislação que instituiu o E32 estabelece vigência de 180 dias, com possibilidade de prorrogação por igual período uma única vez. Essa estrutura normativa cria um limite temporal em julho de 2027, o que torna a decisão sobre o próximo percentual de mistura uma questão relevante para o planejamento do setor de combustíveis.
Testes técnicos para o E35
Nesse intervalo, o Ministério de Minas e Energia formalizou o plano de testes voltado à avaliação do E35, com expectativa de início ainda em setembro deste ano. A efetivação da nova mistura depende do resultado positivo dessas avaliações técnicas, além do cumprimento de etapas específicas de aprovação regulatória.
A nova rodada de testes deve incluir um número maior de veículos antigos e de modelos importados de padrão premium, ampliando o espectro de análise em relação a testes anteriores. Também estão previstas avaliações de durabilidade, com o objetivo de verificar os efeitos do maior teor de etanol sobre os motores ao longo do tempo de uso.
Cenário de manutenção do E30
A consultoria também projetou um cenário alternativo, no qual haveria retorno ao E30 em agosto de 2027, seja por eventual atraso no cronograma de testes ou por outros entraves relacionados à implementação do E35. Nessa hipótese, o consumo de etanol anidro cresceria apenas 1,3%, alcançando 14,8 bilhões de litros.
Nesse cenário, a importação de gasolina A permaneceria praticamente estável em relação a 2026, mantendo-se em torno de 5,2 bilhões de litros. Segundo o relatório, essa configuração deixaria o preço da gasolina na bomba mais dependente das condições do mercado internacional, sem o efeito compensatório proporcionado por uma mistura mais elevada de etanol.
Capacidade de oferta do etanol
Do lado da oferta, a StoneX avalia que o mercado tem condições de absorver um eventual avanço para o E35 sem risco de desabastecimento ou de aumentos relevantes nos preços do biocombustível. A avaliação leva em conta as perspectivas para a safra 2026/27, que apresenta produção mais favorável e estoques elevados em comparação à temporada anterior, principalmente no caso do etanol hidratado.
O etanol de milho também contribui para reforçar a disponibilidade do produto no mercado nacional. Diferente da produção a partir da cana, a produção a partir do milho ocorre durante todo o ano e apresenta uma proporção de anidro maior em relação ao hidratado, o que amplia a capacidade de resposta da oferta a eventuais mudanças na demanda.
Situação distinta no mercado de gasolina
Enquanto a oferta de etanol se mostra confortável, o mercado de gasolina apresenta um cenário diferente. Segundo o relatório, a produção nacional de gasolina acumula queda de 8,5% até agosto, resultado da priorização de derivados médios pelas refinarias, que registraram margens de refino mais elevadas nesse segmento.
Como consequência dessa redução na produção doméstica, as importações de gasolina A cresceram 102% no período analisado. O volume médio mensal importado passou de 300 mil metros cúbicos para 597 mil metros cúbicos em agosto, reforçando a dependência externa para atender à demanda interna por gasolina.
Perspectivas para anidro e hidratado
Na avaliação da StoneX, o cenário para o etanol anidro se mostra mais favorável do que para o hidratado. O avanço regulatório representado pelo E32 já vem sustentando a demanda e os preços do anidro, além de contribuir para a redução dos estoques do produto no mercado nacional.
A eventual adoção do E35 tenderia a ampliar esse efeito, com potencial para contribuir também para a contenção das importações de gasolina A e dos preços da gasolina C oferecida ao consumidor final. O relatório destaca, no entanto, que parte do cenário atual possui caráter conjuntural, associado aos preços internacionais da gasolina e à oferta elevada de etanol observada neste período.
Vetor permanente de mudança
A mudança regulatória no percentual de mistura, por outro lado, representa um vetor permanente, com potencial para alterar de forma duradoura a configuração do consumo de combustíveis leves no país. A evolução dos testes para o E35 e o posicionamento do setor automotivo em relação à nova mistura serão determinantes para a velocidade desse processo de transição.
Ao mesmo tempo, o comportamento dos preços internacionais da gasolina continuará relacionado ao desenrolar do conflito entre Estados Unidos e Irã, fator que permanece como uma das principais variáveis externas capazes de influenciar o mercado brasileiro de combustíveis nos próximos meses.