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China exclui soja e algodão de acordo tarifário com EUA e alivia pressão sobre exportações brasileiras

Por: Redação Valores Agro
29 de setembro de 2026
China exclui soja e algodão de acordo tarifário com EUA e alivia pressão sobre exportações brasileiras

O desdobramento prático do encontro entre os presidentes dos Estados Unidos, Donald Trump, e da China, Xi Jinping, começou a ganhar contornos concretos nos últimos dias, com a divulgação de uma lista de produtos agropecuários americanos que passarão a contar com redução de tarifas na entrada do mercado chinês. A medida, aguardada com apreensão por setores do agronegócio brasileiro, trouxe um alívio pontual: soja e algodão, dois dos principais produtos da pauta exportadora do Brasil para a China, ficaram de fora da lista.

Segundo análise de José Carlos Hausknecht, sócio de agronegócio da EY (Ernst & Young), a ausência desses dois itens reduz significativamente o risco de impacto imediato sobre as exportações brasileiras, ainda que o cenário geral de aproximação comercial entre as duas potências mereça acompanhamento nos próximos meses.

O que muda na relação comercial entre EUA e China

A lista de produtos beneficiados pela redução tarifária chinesa inclui milho, trigo, carne, laticínios, sorgo, peixes e frutos do mar, além de toras e produtos de madeira, óleo e farelo de soja. A China também sinalizou disposição para reduzir taxas de importação sobre outros itens agrícolas americanos, como parte de um movimento mais amplo de distensão comercial entre os dois países.

Ao todo, a expectativa é de que as reduções tarifárias recíprocas envolvam cerca de US$ 60 bilhões em mercadorias comercializadas entre as duas nações. A proposta, no entanto, não detalha prazos específicos para a entrada em vigor dessas mudanças, o que mantém um grau de incerteza sobre o cronograma de implementação.

De acordo com comunicado do Ministério do Comércio da China, mais de 90% dos produtos agrícolas e correlatos incluídos na lista ficarão isentos de tarifas adicionais impostas mutuamente ao longo da disputa comercial recente, passando a ser tributados pelas alíquotas de nação mais favorecida. A soja americana, contudo, continuará sujeita a uma tarifa adicional de 10%, o que, segundo especialistas, ajuda a explicar sua exclusão da lista de reduções.

Soja: por que o produto ficou de fora

A manutenção da tarifação sobre a soja americana é vista como um fator que preserva, ao menos por ora, a posição competitiva do Brasil no fornecimento da oleaginosa ao mercado chinês. Hausknecht pondera, porém, que a China já vinha adquirindo soja dos Estados Unidos mesmo com a tarifação vigente, muitas vezes por meio de empresas estatais, ainda que o produto não fosse o mais competitivo em termos de preço frente à origem sul-americana.

Essa dinâmica está relacionada a um compromisso firmado no ano anterior entre Washington e Pequim, pelo qual a China se comprometeu a importar 25 milhões de toneladas de soja americana anualmente até 2028. Segundo o especialista da EY, esse volume representa mais da metade de toda a soja que os Estados Unidos devem exportar neste ano, o que praticamente obriga a manutenção das compras chinesas independentemente da tarifação aplicada.

Na avaliação de Hausknecht, essa condição estrutural do mercado americano de soja reduz a probabilidade de que a redução de tarifas sobre óleo e farelo do produto traga prejuízos relevantes ao complexo soja brasileiro. Ele destaca que a China não figura entre os grandes importadores desses derivados, preferindo importar o grão em sua forma bruta e processá-lo internamente, o que também limita o alcance prático da medida sobre o comércio internacional desses subprodutos.

Riscos indiretos e a disputa por competitividade

Apesar de classificar como neutro o impacto direto sobre o complexo soja do Brasil, o sócio da EY chama atenção para um efeito colateral relacionado à sinalização política do acordo. Segundo ele, qualquer redução de tarifas por parte do maior comprador mundial de commodities agrícolas sobre produtos de um concorrente direto do Brasil tende a aumentar a competitividade desse concorrente no mercado internacional.

Essa lógica se aplica especialmente à disputa histórica entre Brasil e Estados Unidos pelo mercado chinês de soja, ainda que, no caso específico deste acordo, a manutenção da tarifa adicional sobre o grão americano minimize o risco imediato. A atenção, segundo o especialista, deve se voltar para os próximos desdobramentos das negociações entre as duas potências.

Algodão também fica fora da lista de reduções

O algodão, outro produto de peso na pauta de exportações agrícolas brasileiras para a China, também não foi incluído na lista de reduções tarifárias divulgada pelo governo chinês. Hausknecht destaca que Brasil e Estados Unidos são os maiores exportadores mundiais da fibra, e que a China figura como uma importadora relevante do produto, o que torna essa exclusão outro ponto positivo para o agronegócio brasileiro no curto prazo.

A manutenção do status quo tarifário sobre o algodão americano, segundo a análise, evita uma possível perda de competitividade do produto brasileiro frente ao concorrente americano, ao menos enquanto durar a configuração atual do acordo entre Washington e Pequim.

Carne bovina: cenário permanece favorável ao Brasil

Diferentemente de soja e algodão, a carne consta entre os produtos beneficiados pela redução tarifária chinesa sobre importações americanas. Ainda assim, Hausknecht não vê, por enquanto, motivos para um cenário negativo em relação às exportações brasileiras do produto.

Segundo o especialista, a demanda chinesa por carne bovina segue elevada, favorecendo o Brasil, que tem ampliado espaço no mercado internacional e mantido preços firmes. Ele pondera que os Estados Unidos também têm importado volumes relevantes de carne, o que sugere um mercado global aquecido, capaz de absorver oferta de diferentes origens sem necessariamente prejudicar a posição brasileira.

O especialista acrescenta que fatores como o fenômeno climático El Niño, condições de crédito e o aumento de custos de produção geram incertezas sobre a oferta futura de carne em diferentes países, o que tende a manter o mercado com preços firmes e perspectivas relativamente positivas para os exportadores brasileiros nos próximos meses.

Contexto eleitoral americano e sustentabilidade do acordo

Na leitura de Hausknecht, parte da movimentação recente entre Estados Unidos e China é influenciada pelo calendário eleitoral americano, com as eleições legislativas de meio de mandato se aproximando. Segundo ele, o presidente Donald Trump busca resultados políticos que possam favorecer sua posição junto ao eleitorado, o que ajudaria a explicar a rapidez com que o acordo tarifário foi anunciado.

O especialista ressalta ainda que, até que o processo eleitoral americano se complete e novas definições sejam estabelecidas em relação ao comércio bilateral, grande parte da safra americana de grãos já terá sido comercializada, o que reduz o potencial de impacto prático das medidas sobre o atual ciclo produtivo.

Outros pontos do acordo entre EUA e China

Como contrapartida às reduções tarifárias chinesas sobre produtos agrícolas americanos, os Estados Unidos concederam cortes tarifários sobre itens como pequenos eletrodomésticos, brinquedos, fogos de artifício e decorações festivas de origem chinesa. O acordo também prevê a criação de um grupo de trabalho conjunto sobre agricultura, vinculado a um conselho comercial bilateral, com primeira reunião prevista para novembro, quando devem ser discutidos temas como regulamentação e acesso a mercados.

Em outra frente do entendimento entre os dois países, a China se comprometeu a importar 10 milhões de toneladas métricas de carvão americano anualmente em 2027 e 2028, volume que representa cerca de 2% das importações anuais chinesas do produto. Gás natural liquefeito e petróleo não integraram essa parte específica do acordo.

O Ministério do Comércio da China também confirmou a prorrogação, por dois meses, da trégua comercial com os Estados Unidos, com validade até o dia 10 de janeiro. O período adicional deve ser utilizado pelos dois países para avaliar o andamento do acordo em curso e discutir a resolução de pontos ainda pendentes na relação econômica bilateral.

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