Arroba do boi gordo bate recorde nominal em São Paulo, segundo Cepea

Cotação histórica no mercado paulista
O mercado de boi gordo registrou um marco relevante na última sexta-feira (16/10), quando o indicador Cepea/Esalq, referência para o estado de São Paulo, fechou em R$ 380,70 por arroba. Trata-se do maior valor nominal já registrado pela série histórica do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada, iniciada em 1994, consolidando um movimento de valorização que já se estende há vários meses.
Apesar do recorde em termos nominais, especialistas ponderam que, quando os valores são corrigidos pela inflação, a cotação atual ainda não supera o patamar observado em novembro de 2020. Naquela ocasião, a arroba foi negociada a R$ 292, valor que, atualizado pelo IGP-DI, equivaleria hoje a aproximadamente R$ 385. Ou seja, mesmo diante do novo recorde nominal, o mercado ainda caminha para alcançar o maior patamar já visto em termos reais.
Trajetória de alta desde setembro
O movimento de valorização da arroba não é recente. Desde o início de setembro, a cotação acumula alta de 10,4% no estado de São Paulo, reflexo de uma combinação de fatores ligados tanto à oferta quanto à demanda por carne bovina. Apenas no mês de outubro, o avanço já soma 4,5%, o que reforça a intensidade do movimento nas últimas semanas.
Segundo analistas do Cepea, o principal fator por trás dessa valorização é a oferta de animais prontos para abate em volume inferior à demanda das indústrias frigoríficas. Esse descompasso entre a quantidade de boi disponível para terminação e a necessidade das plantas frigoríficas tem sustentado a pressão altista sobre os preços nas principais praças do país.
O temor da cota chinesa e seus efeitos inesperados
O cenário atual chama atenção porque, até pouco tempo atrás, parte significativa dos agentes de mercado temia justamente o oposto: uma possível pressão de baixa nas cotações. Isso porque, em setembro, o Brasil atingiu o limite da cota de exportação de carne bovina estabelecida pela China, principal destino do produto brasileiro no mercado internacional.
De acordo com o Cepea, o país asiático fixou em 1,106 milhão de toneladas o volume que pretende importar do Brasil ao longo de 2026. A expectativa de que esse teto fosse atingido e resultasse em uma redução abrupta nas compras chinesas levou parte dos produtores a adotar uma postura mais cautelosa.
Paradoxalmente, foi justamente esse temor que ajudou a reduzir a oferta interna de animais. Receosos com uma possível retração nas exportações para a China, muitos produtores optaram por segurar a entrada de bovinos nos confinamentos, à espera de maior clareza sobre os rumos do mercado externo. Essa retenção de animais acabou restringindo ainda mais a disponibilidade de boi pronto para abate no mercado doméstico.
Custos de reposição e exportação de gado vivo pressionam oferta
Além da cautela ligada ao cenário chinês, outros fatores também contribuíram para a redução da oferta de animais terminados. O custo mais elevado para a reposição de bovinos tem comprimido as margens de lucro de quem trabalha com a terminação do gado, desestimulando a entrada de novos lotes em sistemas de confinamento.
Soma-se a isso o recorde nas exportações de gado vivo, modalidade que também compete pela oferta de animais disponíveis no país. Com mais bovinos destinados a esse tipo de comércio internacional, a quantidade de animais disponível para abate no mercado interno tende a ficar ainda mais restrita, reforçando a tendência de valorização da arroba.
Demanda internacional segue aquecida apesar da redução chinesa
Do lado da demanda, o cenário também apresenta nuances importantes. Embora as compras chinesas tenham diminuído nas últimas semanas, outros mercados internacionais passaram a compensar essa retração. Os Estados Unidos, em particular, aumentaram a procura por carne bovina brasileira no período recente.
Como resultado dessa diversificação de compradores, o volume total de carne bovina exportada pelo Brasil nos últimos meses permanece em patamar elevado, mesmo com a redução da participação chinesa. Esse comportamento indica que a demanda global pelo produto brasileiro segue firme, ainda que distribuída de forma diferente entre os principais mercados consumidores.
Mercado firme também na avaliação da Scot Consultoria
A Scot Consultoria, outra referência no acompanhamento do setor, também destacou a firmeza do mercado durante toda a sexta-feira (16/10). Segundo a consultoria, após as recentes altas nas cotações do boi gordo na semana anterior e das fêmeas ao longo desta semana, houve uma melhora na oferta de animais disponíveis para negociação.
Essa maior disponibilidade permitiu que as indústrias frigoríficas negociassem com mais facilidade junto aos produtores, possibilitando a recomposição das escalas de abate em diversas regiões do país. O movimento sugere um reequilíbrio pontual entre oferta e demanda, mesmo em meio ao cenário de preços elevados.
Comportamento regional das cotações
No levantamento realizado pela Scot Consultoria em 33 regiões produtoras monitoradas, a maior parte apresentou estabilidade nos preços do boi gordo na comparação diária, totalizando 25 praças sem variação significativa. Ainda assim, oito regiões registraram altas pontuais nas cotações.
Entre as áreas que apresentaram valorização estão o norte de Minas Gerais, a região de Dourados, no Mato Grosso do Sul, o oeste da Bahia, o sudoeste de Mato Grosso, a praça de Cuiabá, além de Santa Catarina, da região de Paragominas, no Pará, e do Espírito Santo. Esse comportamento heterogêneo reflete as particularidades logísticas e de oferta em cada localidade.
Referências paulistas mantêm patamar elevado
Nas praças de Araçatuba e Barretos, tradicionais referências para o mercado nacional, o preço do boi gordo permaneceu estável em R$ 380 a arroba, considerando o pagamento em 30 dias. As cotações relacionadas ao chamado boi destinado ao mercado chinês, assim como o valor da vaca, também não apresentaram alterações nessas regiões.
Já no segmento de fêmeas, a novilha registrou leve alta de R$ 2, alcançando R$ 370 a arroba. O movimento acompanha a tendência observada ao longo da semana, em que as cotações de fêmeas também passaram por ajustes, refletindo o rearranjo geral de preços no mercado de pecuária de corte.
Perspectivas para o setor
O cenário atual evidencia a complexidade das relações entre mercado interno e comércio exterior no setor de carne bovina. A combinação entre restrição de oferta, custos elevados de reposição, exportação recorde de gado vivo e diversificação da demanda internacional tem sustentado preços historicamente altos para o boi gordo no Brasil.
Para os próximos meses, o comportamento da oferta de animais prontos para abate, somado às decisões dos principais países importadores, deve continuar sendo determinante para a trajetória das cotações. O setor acompanha de perto tanto os movimentos da China quanto a evolução da demanda de outros mercados, fatores que seguem moldando o equilíbrio entre produção e comércio exterior de carne bovina brasileira.