Masterboi projeta que 60% do gado abatido em Iguatu seja de origem cearense

Novo frigorífico marca expansão da pecuária cearense
A chegada de uma nova unidade frigorífica ao município de Iguatu, no interior do Ceará, promete reconfigurar a dinâmica da pecuária de corte no Estado. A empresa Masterboi anunciou que começará a construção da planta no segundo semestre de 2027, com previsão de início das operações em 2028. O empreendimento é apontado como um marco para o setor, que vem se estruturando para atender a uma demanda crescente por carne bovina, tanto no mercado interno quanto em operações de exportação.
De acordo com informações repassadas pela empresa, a expectativa é que, logo no início das atividades, cerca de 60% do gado abatido na unidade seja proveniente de criadores cearenses. O restante do fornecimento, ao menos no primeiro momento, deve vir de outras regiões, em um modelo semelhante ao adotado quando a companhia iniciou suas operações em outra unidade no Nordeste.
Capacidade da planta e escala inicial de operação
A unidade de Iguatu foi projetada para atingir a capacidade de mil abates diários quando estiver em pleno funcionamento. Entretanto, o início das atividades será gradual, com a fábrica operando inicialmente entre 400 e 500 animais processados por dia. Esse formato de implantação progressiva busca adequar a oferta local de gado à capacidade industrial, evitando descompassos entre produção e abate.
Segundo o gerente de compra de gado da Masterboi, Josinaldo Medeiros, essa estratégia de crescimento escalonado já foi testada com sucesso em outra unidade da empresa, localizada em Canhotinho, no estado de Pernambuco. Lá, o fornecimento local também começou em patamares menores e cresceu de forma consistente ao longo dos anos, à medida que os produtores da região se adaptaram à nova demanda industrial.
Comparação com a experiência de Pernambuco
O executivo da Masterboi traçou um paralelo direto entre o que ocorreu em Canhotinho e o que se espera agora no Ceará. Segundo ele, quando a unidade pernambucana começou a operar, cerca de 70% do gado abatido vinha de outros estados, com apenas uma parcela menor sendo de origem local. Atualmente, esse cenário se inverteu, e praticamente 80% do gado processado na planta já é criado dentro do próprio Pernambuco.
Para o Ceará, a avaliação da empresa é de que o processo de substituição da origem do gado pode ser ainda mais rápido. Isso porque o Estado já vem se preparando com antecedência para a chegada do frigorífico, organizando produtores e investindo em infraestrutura de criação. Essa movimentação prévia é vista como um diferencial importante em relação ao que ocorreu na experiência pernambucana.
Fornecimento atual de gado cearense para a empresa
Mesmo antes da inauguração da unidade em Iguatu, o Ceará já ocupa posição relevante na cadeia de fornecimento da Masterboi. De acordo com dados apresentados pela companhia, pecuaristas cearenses são responsáveis por 12% dos bovinos abatidos atualmente na unidade de Canhotinho, em Pernambuco. Como a fábrica processa cerca de 850 cabeças de gado por dia, esse percentual representa a participação de aproximadamente 102 animais de origem cearense no volume diário processado.
Essa relação prévia entre produtores do Ceará e a empresa é apontada como um fator que deve facilitar a transição para o novo frigorífico. Muitos desses criadores já mantêm vínculos comerciais com a Masterboi, o que inclui contratos e pré-contratos de fornecimento, além de acompanhamento técnico por parte da empresa.
Expectativa de crescimento acelerado do fornecimento local
A Masterboi trabalha com a perspectiva de que o percentual de gado cearense no abate da nova unidade possa evoluir rapidamente, alcançando patamares entre 80% e 100% em um período considerado curto pela empresa. Essa projeção está baseada na aptidão natural do Estado para a atividade pecuária, somada à facilidade de acesso a insumos utilizados na alimentação animal, como milho e soja, amplamente cultivados na região.
Apesar da expectativa otimista, a empresa não detalhou um cronograma específico para essa evolução, indicando que o processo dependerá do ritmo de adaptação dos produtores locais e da capacidade de expansão do rebanho voltado ao corte dentro do Estado.
Apoio técnico e vínculo contratual com produtores
Um dos pontos destacados pela empresa é o suporte técnico oferecido aos pecuaristas que se tornam fornecedores. Segundo a Masterboi, equipes especializadas acompanham o trabalho em campo, auxiliando em práticas de manejo e também em temas ligados à sustentabilidade e critérios ambientais, sociais e de governança. A empresa afirma que esse acompanhamento busca garantir não apenas volume de produção, mas também qualidade e responsabilidade na criação do gado.
Essa estrutura de relacionamento com produtores já vem sendo construída mesmo antes da inauguração da unidade cearense, por meio de contratos e pré-contratos firmados com criadores que hoje fornecem para a planta de Pernambuco e que devem migrar o fornecimento para Iguatu assim que a nova unidade entrar em operação.
Relato de produtor sobre impacto de frigoríficos na região
A experiência vivida por produtores em Pernambuco ajuda a ilustrar o tipo de transformação que pode ocorrer no Ceará. Um pecuarista da região relatou que a chegada de um grande frigorífico, há cerca de cinco anos, permitiu a ampliação do rebanho local e viabilizou o abate dentro do próprio estado, sem a necessidade de deslocamento para outras regiões. Segundo o produtor, parte da carne processada localmente passou a ser destinada também à exportação, incluindo mercados internacionais como o chinês.
Possíveis impactos sobre a produção de leite
A instalação do frigorífico em Iguatu também levanta discussões sobre possíveis efeitos na cadeia leiteira do Ceará. Um dos pontos mais debatidos é a possibilidade de produtores que hoje atuam na pecuária leiteira migrarem para a pecuária de corte, atraídos pela nova demanda industrial e pelas oportunidades comerciais geradas pelo frigorífico.
Na avaliação de um pesquisador especializado em mercados de proteína animal, esse movimento é considerado natural diante da chegada de um novo polo industrial. Segundo o especialista, a presença de uma indústria de grande porte tende a dinamizar a economia local e a atrair produtores para atividades consideradas mais rentáveis em determinado momento, como pode ser o caso da pecuária de corte frente à produção de leite.
Equilíbrio entre oferta de leite e pecuária de corte
Apesar de apontar benefícios no fortalecimento da pecuária de corte, o pesquisador alerta que uma migração expressiva de produtores pode gerar redução temporária na oferta de leite, impactando os preços do produto no mercado regional. Segundo ele, esse tipo de ajuste tende a ser natural em cadeias produtivas que passam por mudanças estruturais, já que o mercado busca equilíbrio entre oferta e demanda ao longo do tempo.
O especialista pondera que, embora as duas atividades possam conviver, períodos distintos tendem a apresentar maior rentabilidade para uma ou outra cadeia. Para o produtor que optar por permanecer na pecuária leiteira, a redução temporária de oferta pode representar uma oportunidade, já que a escassez tende a favorecer preços mais elevados no curto prazo.
Perspectivas de recuperação da oferta leiteira
Ainda segundo a análise apresentada, eventuais quedas na oferta de leite tendem a ser revertidas rapidamente, caso haja investimento em melhorias na produtividade do rebanho remanescente. Fatores como alimentação adequada, manejo eficiente e aumento da produção por animal são citados como caminhos para recompor volumes de produção sem necessariamente depender do aumento do número de produtores na atividade.
O tema também foi abordado durante um evento voltado à pecuária nordestina, no qual especialistas reforçaram a importância de investimentos estratégicos para elevar a produtividade do rebanho, tanto na pecuária de corte quanto na pecuária leiteira, diante das transformações que devem ocorrer no setor com a chegada de novos empreendimentos industriais à região.