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Resistência do carrapato aos tratamentos reacende debate sobre genética bovina no RS

Por: Redação Valores Agro
12 de outubro de 2026
Resistência do carrapato aos tratamentos reacende debate sobre genética bovina no RS

A primavera marca, no Rio Grande do Sul, um dos períodos mais importantes para o setor pecuário, quando remates e exposições colocam em evidência o trabalho de seleção genética realizado ao longo de anos pelos criadores gaúchos. É também nesse momento que questões sanitárias ganham espaço nas discussões técnicas, já que o manejo reprodutivo e a valorização de animais de elite caminham lado a lado com desafios recorrentes da atividade. Um desses desafios, antigo conhecido da pecuária, voltou a ocupar posição de destaque nas rodas de debate: o carrapato bovino.

O tema foi incluído na programação técnica da Farm Show, tradicional exposição agropecuária realizada em Dom Pedrito, que segue em cartaz até o próximo domingo. A escolha do assunto reflete uma preocupação crescente entre produtores e técnicos, relacionada não apenas à presença do parasita nos rebanhos, mas principalmente ao aumento da resistência do carrapato aos produtos utilizados tradicionalmente no seu combate.

Um problema antigo com contornos atuais

O presidente do Sindicato e Associação Rural de Dom Pedrito, Rodrigo Coradini, definiu a situação como "um velho problema novo", expressão que resume bem o cenário enfrentado pelos pecuaristas na atualidade. Segundo ele, o carrapato sempre esteve presente na rotina de manejo sanitário dos rebanhos gaúchos, mas a dificuldade crescente em controlá-lo de forma eficaz trouxe um caráter de urgência renovado ao tema.

De acordo com Coradini, os avanços tecnológicos disponíveis no mercado nem sempre garantem soluções duradouras para o problema. Isso ocorre porque o parasita vem desenvolvendo resistência a diferentes princípios ativos utilizados nos tratamentos convencionais, o que reduz a eficácia dos produtos ao longo do tempo e exige constante atualização das estratégias de controle por parte dos produtores.

Esse cenário de resistência cada vez mais disseminada tem motivado entidades ligadas ao setor a incluir o assunto em espaços de debate técnico, como ocorreu na programação da Farm Show. A ideia é justamente discutir alternativas que permitam reduzir a dependência exclusiva de produtos químicos, cuja eficácia vem sendo comprometida pelo próprio comportamento adaptativo do parasita.

Genética como caminho complementar de controle

Uma das alternativas discutidas durante o evento é o uso da resistência genética natural dos bovinos como ferramenta complementar no combate ao carrapato. A proposta parte da observação de que, mesmo quando submetidos às mesmas condições ambientais e de manejo, alguns animais apresentam infestações parasitárias muito mais intensas do que outros.

Essa variação na carga de carrapatos entre indivíduos de um mesmo rebanho, segundo Coradini, pode estar diretamente relacionada a características genéticas já presentes no DNA dos animais. Em outras palavras, alguns bovinos possuem naturalmente maior capacidade de resistir à proliferação do parasita, enquanto outros se mostram mais suscetíveis à infestação, mesmo vivendo sob as mesmas condições de pastagem e clima.

Esse diferencial biológico, de acordo com o dirigente, representa uma oportunidade para os programas de seleção genética. A ideia é que, além dos critérios tradicionais utilizados na escolha de reprodutores e matrizes — como ganho de peso, conversão alimentar e características de carcaça —, a resistência a parasitas como o carrapato também passe a ser considerada como um atributo relevante no momento do melhoramento genético dos rebanhos.

Incorporar esse critério às estratégias de seleção não significa abandonar os métodos tradicionais de controle sanitário, mas sim somar uma ferramenta adicional à rotina de manejo. A combinação entre tratamento químico, manejo de pastagens e seleção genética tende a ser mais eficiente do que a dependência exclusiva de um único método, especialmente diante do avanço da resistência do parasita aos produtos disponíveis no mercado.

Reflexos para a pecuária gaúcha

A discussão sobre o carrapato ocorre em um momento de otimismo para o mercado pecuário no Rio Grande do Sul, marcado pela valorização de terneiros e pela busca constante por genética de qualidade nos remates que acontecem durante a primavera. Nesse contexto, problemas sanitários que afetam diretamente a produtividade e a saúde dos animais ganham ainda mais relevância, já que podem comprometer os resultados obtidos com anos de investimento em melhoramento genético.

A presença do carrapato nos rebanhos não afeta apenas o bem-estar animal, mas também pode gerar prejuízos econômicos relacionados à perda de peso, menor desempenho reprodutivo e maior susceptibilidade a doenças transmitidas pelo parasita. Por isso, o controle eficiente tem impacto direto na rentabilidade das propriedades e na qualidade final da carne produzida.

A realização de debates técnicos durante eventos como a Farm Show cumpre papel importante na difusão de informações atualizadas entre os produtores. A troca de experiências entre criadores, técnicos e representantes de entidades rurais contribui para que novas estratégias de manejo sejam conhecidas e avaliadas, especialmente diante de desafios que, como no caso da resistência do carrapato, exigem respostas mais elaboradas do que simplesmente intensificar o uso de produtos químicos.

Perspectivas para o manejo sanitário

Embora a resistência genética dos bovinos ao carrapato não seja uma solução isolada capaz de eliminar o problema por completo, sua incorporação gradual aos critérios de seleção pode representar um avanço importante para a pecuária gaúcha nos próximos anos. A combinação entre práticas de manejo adequadas, uso racional de produtos sanitários e escolha de genética mais resistente tende a compor um conjunto de estratégias mais sustentável a longo prazo.

O debate iniciado durante a Farm Show reforça a importância de que o setor continue investindo em conhecimento técnico e em pesquisa aplicada, de modo a acompanhar a evolução do comportamento dos parasitas e adaptar as estratégias de controle conforme necessário. A resistência do carrapato aos tratamentos convencionais é um alerta para que produtores e entidades do setor busquem soluções cada vez mais integradas.

Enquanto a programação da exposição segue até o fim de semana, o tema deve continuar sendo discutido entre técnicos e produtores presentes no evento, reforçando a relevância de incluir questões sanitárias na mesma pauta das discussões sobre genética e valorização do rebanho bovino no Rio Grande do Sul.

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