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Chuvas no Paraná atrasam plantio de soja e prejudicam qualidade do trigo

Por: Redação Valores Agro
15 de outubro de 2026
Chuvas no Paraná atrasam plantio de soja e prejudicam qualidade do trigo

Chuvas interrompem trabalhos no campo

As lavouras paranaenses enfrentam um cenário de forte instabilidade climática neste período de transição entre as safras de inverno e verão. Volumes expressivos de chuva, associados à influência do fenômeno El Niño, têm dificultado a entrada de máquinas no campo, comprometendo simultaneamente a colheita do trigo e da cevada e o avanço do plantio de soja.

Segundo levantamento do Departamento de Economia Rural (Deral), vinculado à Secretaria de Estado da Agricultura e Abastecimento do Paraná, a semeadura da soja atingiu 39% da área total prevista para a safra 2026/7, enquanto o plantio de milho já alcançou 90% do total estimado. Os números, embora representem avanço, ficam abaixo do ritmo que produtores pretendiam imprimir aos trabalhos antes da intensificação das chuvas.

Qualidade do trigo é a maior preocupação

Entre os impactos mais sensíveis está a deterioração da qualidade do trigo ainda pendente de colheita. O excesso de umidade e a predominância de dias nublados têm dificultado a secagem dos grãos no campo, fator que compromete diretamente a classificação comercial da produção.

De acordo com o boletim do órgão estadual, o cenário sinaliza novas revisões para baixo nas estimativas oficiais de produção de trigo no Paraná. Ao mesmo tempo, mantém-se a sustentação nas cotações do trigo de alta qualidade no mercado interno, reflexo direto da escassez de lotes que atendam aos padrões mais exigentes.

O agrônomo do Deral, Carlos Hugo Godinho, avalia que a combinação entre chuvas frequentes e ausência de sol prolongado tem sido o principal entrave para os produtores. Segundo ele, embora fosse esperado um volume maior de precipitação neste período, a expectativa era de que ocorressem janelas de sol mais favoráveis entre os eventos chuvosos, o que não se confirmou com a intensidade desejada.

O levantamento mais recente do órgão mostra que, dos 182 mil hectares de trigo que ainda aguardavam colheita no Estado, 12% da área foi classificada em condição ruim, 42% em situação média e 46% em boas condições. Esses percentuais reforçam a percepção de perda gradual de qualidade conforme as chuvas se prolongam.

Relatos de produtores na região dos Campos Gerais

Na região dos Campos Gerais, tradicional polo de produção de grãos de inverno e verão no Paraná, produtores relatam dificuldade de dar sequência às atividades no campo. Em Tibagi, o produtor Leendert de Geus afirmou que nenhuma operação foi possível durante os últimos dias devido ao excesso de chuva, restando apenas aguardar a abertura de uma janela de tempo seco para retomar colheita e plantio.

De Geus relatou expectativa de abertura de sol entre o fim de semana e o início da semana seguinte, período em que pretende concentrar esforços para colher o trigo remanescente, plantar soja e realizar a pulverização do milho já instalado desde o início de setembro. Segundo o produtor, de uma área de 270 hectares destinada ao trigo nesta safra, apenas 100 hectares haviam sido colhidos até o momento, com qualidade do grão já impactada pelo volume de chuva.

A estratégia do produtor prevê a utilização da área de trigo colhida para o plantio de soja, cultura que deve ocupar 700 hectares da propriedade nesta safra. Até o momento, no entanto, apenas 180 hectares da oleaginosa haviam sido semeados, resultado direto da restrição imposta pelas condições climáticas.

Em relação ao milho, De Geus mencionou que 100 hectares já estão implantados, mas aguardam a interrupção das chuvas para viabilizar aplicações de herbicidas, inseticidas e nitrogênio, procedimentos considerados essenciais para o estágio inicial da cultura. O produtor afirmou esperar regularizar essas operações assim que as condições climáticas permitirem.

Relato semelhante foi apresentado pelo produtor Geraldo Morsink, de Piraí do Sul, também na região dos Campos Gerais. Segundo ele, a semana foi marcada por chuvas intensas que paralisaram por completo as atividades agrícolas, impedindo tanto plantio quanto colheita, além de tratos culturais nas lavouras já estabelecidas.

Ritmo do plantio de soja segue padrão da safra anterior

Apesar das dificuldades enfrentadas nas últimas semanas, o ritmo geral do plantio de soja no Paraná está alinhado ao observado na safra anterior. Conforme o Deral, os 39% de área semeada representam percentual idêntico ao registrado no mesmo período do ciclo passado, considerando a meta de 5,7 milhões de hectares previstos para a cultura no Estado.

O órgão destaca que o início dos trabalhos ocorreu em ritmo superior à média histórica, impulsionado pela preocupação dos produtores com os possíveis efeitos do El Niño sobre o calendário agrícola. Essa antecipação, no entanto, perdeu força à medida que as chuvas se intensificaram ao longo de outubro.

Em diversas regiões, o volume acumulado de precipitação no mês já superou a média histórica esperada para todo o período, o que resultou na redução natural do ritmo de semeadura, conforme avaliação do próprio Deral em seu boletim mais recente.

Cevada também sofre com o excesso de umidade

Além do trigo, a cultura da cevada também enfrenta dificuldades relacionadas ao excesso de chuva no Paraná. Segundo Godinho, as condições climáticas têm atrasado a colheita e devem provocar perdas na qualidade dos grãos, além de aumentar o risco de incidência de doenças fúngicas associadas à umidade prolongada.

A expectativa é que o próximo levantamento de safra do Deral, previsto para o fim do mês, traga indicativos mais precisos sobre eventuais perdas de produtividade na cultura. O boletim anterior, divulgado no início do mês, apontava para uma colheita de cevada em torno de 28% da área cultivada no Estado.

Na região dos Campos Gerais, que concentra a maior parte da produção nacional de cevada ao lado de Guarapuava, a colheita apresentou avanço mais significativo, já que o plantio havia sido antecipado em diversas propriedades. Esse foi o caso de Leendert de Geus, que realizou a semeadura em maio e conseguiu concluir a colheita do cereal, com padrão cervejeiro, antes do início do período mais intenso de chuvas.

Expectativas para os próximos dias

Produtores e técnicos acompanham de perto a previsão de abertura de sol nos próximos dias, considerada essencial para retomar o ritmo de colheita das culturas de inverno e acelerar o plantio da soja. A janela de tempo seco, ainda que breve, deve ser aproveitada de forma intensiva para recuperar o cronograma agrícola afetado pelas chuvas recentes.

O cenário reforça a sensibilidade do calendário agrícola paranaense às condições climáticas, especialmente em períodos de transição entre safras, quando a sobreposição de atividades como colheita e plantio exige condições de solo e tempo favoráveis para manter a eficiência operacional no campo.

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