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Dependência de fertilizantes importados expõe fragilidades da agricultura brasileira

Por: Redação Valores Agro
13 de outubro de 2026
Dependência de fertilizantes importados expõe fragilidades da agricultura brasileira

Um insumo essencial e pouco discutido

Passa quase despercebido pela maioria da população, mas o debate sobre fertilizantes ocupa espaço crescente nas discussões internacionais sobre agricultura e mudanças climáticas. Esses insumos são responsáveis por fornecer às plantas nutrientes essenciais ao seu desenvolvimento, especialmente nitrogênio, fósforo e potássio, combinação conhecida pela sigla NPK. Sem eles, seria impossível sustentar os atuais níveis de produção agrícola em escala global.

A origem desses produtos remonta ao início do século XX, quando químicos europeus desenvolveram as primeiras fórmulas sintéticas capazes de suprir solos com nutrientes de forma artificial. O uso em larga escala, no entanto, só se consolidou após a Segunda Guerra Mundial, período em que fábricas voltadas à produção de explosivos foram adaptadas para fabricar fertilizantes. A disponibilidade de gás natural a baixo custo reduziu os preços de produção e impulsionou o que ficou conhecido como Revolução Verde, movimento que transformou a agricultura mundial.

De solos pobres à potência agrícola

O Brasil é um exemplo emblemático dessa transformação. Historicamente marcado por solos de baixa fertilidade natural, o país se tornou uma das principais potências agrícolas do mundo justamente a partir da adoção intensiva de fertilizantes sintéticos. Esse processo permitiu a expansão da fronteira agrícola e o avanço expressivo da produtividade em diversas culturas, consolidando a imagem do Brasil como celeiro global de alimentos.

Passadas décadas desde a consolidação desse modelo, no entanto, surgem evidências de que ele carrega fragilidades estruturais. Especialistas apontam a existência de três problemas centrais associados à dependência de fertilizantes importados: um de natureza econômica, que compromete diretamente a rentabilidade do produtor rural; outro de caráter estratégico, relacionado à segurança alimentar, energética e à soberania nacional; e um terceiro de ordem climática, com impactos que extrapolam as fronteiras do país.

A concentração da oferta mundial

O elemento comum a esses três desafios é a dependência externa. Estima-se que o Brasil importe cerca de 85% de todo o fertilizante que consome, um percentual expressivo diante da relevância do setor agrícola para a economia nacional. Essa vulnerabilidade se torna ainda mais evidente quando se observa a concentração geográfica da produção mundial desses insumos.

Países como China, Índia, Rússia e Estados Unidos figuram entre os maiores produtores de fertilizantes nitrogenados do planeta. No caso do fósforo, Marrocos concentra a maior parte das reservas mundiais de rocha fosfática, enquanto a oferta de potássio está distribuída principalmente entre Canadá, Rússia, Belarus e China. Essa configuração expõe o Brasil a riscos geopolíticos e a oscilações de preços internacionais que fogem ao controle de produtores e autoridades nacionais.

O pacote tecnológico e seus custos

O modelo agrícola brasileiro está estruturado em torno de um pacote tecnológico que combina fertilizantes sintéticos, agrotóxicos, sementes geneticamente modificadas e maquinário pesado. Essa combinação, embora tenha viabilizado ganhos expressivos de produtividade ao longo das décadas, também aprofunda a exposição do produtor a fatores externos, como disputas comerciais internacionais e instabilidades no fornecimento de insumos básicos.

Dados de estudos recentes revelam uma relação de troca cada vez mais desfavorável para o agricultor brasileiro. Há pouco mais de uma década, eram necessárias 11 sacas de soja para cobrir os gastos com sementes, agrotóxicos e fertilizantes. Atualmente, essa conta praticamente dobrou, exigindo cerca de 23 sacas para cobrir os mesmos custos. O cenário se agrava diante de conflitos internacionais que afetam cadeias de suprimento de insumos agrícolas.

Mais insumos, ganhos menores

Outro ponto que chama atenção é a queda na eficiência do uso de fertilizantes ao longo do tempo. Décadas atrás, cada tonelada de fertilizante aplicada na produção de soja correspondia a centenas de sacas colhidas. Atualmente, essa relação é significativamente menor, o que indica que o produtor passou a utilizar quantidades crescentes de insumos sem obter ganhos proporcionais de produtividade.

Parte dessa ineficiência está relacionada às características dos solos tropicais brasileiros. Nem todo nutriente aplicado é efetivamente absorvido pelas plantas, podendo ser perdido por lixiviação, volatilização ou retido por reações químicas com outros elementos do solo. O fósforo é um exemplo recorrente desse fenômeno, já que sua interação com minerais de ferro e alumínio presentes nos solos tropicais reduz sua disponibilidade para as raízes, mesmo quando o nutriente está fisicamente presente no terreno.

Ciência brasileira busca alternativas

Diante desse cenário, instituições científicas nacionais têm investido no desenvolvimento de soluções biológicas capazes de otimizar o uso de nutrientes já presentes no solo. Um exemplo é o desenvolvimento de inoculantes biológicos voltados à solubilização do fósforo, por meio de bactérias que colonizam as raízes das plantas e produzem compostos capazes de liberar o nutriente retido em minerais, tornando-o disponível para absorção.

Além das soluções biológicas específicas, há um conjunto de práticas agronômicas capazes de reduzir a dependência de fertilizantes sintéticos dentro da própria propriedade rural. Rotação de culturas, diversificação de plantas de cobertura, plantio direto bem manejado, compostagem, integração entre lavoura e pecuária e uso de bioinsumos são algumas das estratégias apontadas como caminhos para melhorar a ciclagem de nutrientes e fortalecer a saúde do solo ao longo do tempo.

A fixação biológica como exemplo de sucesso

A cultura da soja é frequentemente citada como exemplo bem-sucedido de redução de dependência externa. Por meio da fixação biológica de nitrogênio, realizada por bactérias associadas às raízes da planta, a cultura consegue dispensar, em grande parte, a aplicação de fertilizantes nitrogenados sintéticos. Esses microrganismos capturam o nitrogênio presente na atmosfera e o convertem em formas assimiláveis pela planta, reduzindo custos de produção e evitando emissões associadas à fabricação e aplicação de adubos nitrogenados.

O nitrogênio no centro do debate climático

A produção industrial de nitrogênio sintético também está diretamente ligada à questão climática. O processo utilizado para fabricar amônia, matéria-prima da ureia e de outros fertilizantes nitrogenados, depende da combinação de nitrogênio atmosférico com hidrogênio sob condições de alta pressão e temperatura. Na maior parte dos casos, o hidrogênio utilizado nesse processo é obtido a partir de gás natural ou carvão, o que significa que parcela significativa dos fertilizantes nitrogenados tem origem em combustíveis fósseis.

Nesse contexto, soluções como a chamada ureia verde, que utiliza fontes de energia menos poluentes em seu processo produtivo, têm sido apresentadas como alternativa ambientalmente mais vantajosa. No entanto, especialistas alertam que a molécula resultante é quimicamente idêntica à ureia convencional. Uma vez aplicada ao solo, ela está sujeita aos mesmos processos biológicos que liberam óxido nitroso, gás de efeito estufa com elevado potencial de aquecimento. Como grande parte das emissões associadas aos fertilizantes ocorre justamente no campo, após a aplicação, a substituição isolada da ureia convencional pela verde não resolve a maior parte do problema climático envolvido.

Políticas públicas e desafios pendentes

Em 2022, o governo brasileiro lançou um plano nacional voltado à ampliação da produção doméstica de fertilizantes e à redução da dependência de importações. Passados alguns anos de sua implementação, o país ainda enfrenta dificuldades estruturais para reduzir significativamente essa vulnerabilidade externa. Embora o plano reconheça a relevância da inovação e de fontes alternativas de nutrientes, especialistas defendem que a agenda de bioinsumos e de eficiência agronômica precisa ocupar posição central na estratégia nacional.

Isso porque, segundo avaliações técnicas, simplesmente produzir internamente os mesmos insumos hoje importados não resolve, por si só, as fragilidades de um modelo que demanda quantidades crescentes de fertilizantes para sustentar os níveis atuais de produção agrícola. A substituição de fornecedores estrangeiros por produção nacional, sem mudanças estruturais no modelo de manejo, tende a manter as mesmas vulnerabilidades em outra escala.

Potencial brasileiro para liderar a transição

Apesar dos desafios identificados, o Brasil reúne condições favoráveis para avançar na direção de um modelo agrícola menos dependente de insumos externos. O país possui instituições científicas de referência internacional, ampla biodiversidade e uma agricultura tropical consolidada em grande escala, fatores que podem sustentar o desenvolvimento de tecnologias adaptadas às condições específicas de seus solos e clima.

A adoção de bioinsumos, nesse sentido, é apontada como uma das poucas atividades humanas capazes de contribuir simultaneamente para a redução de emissões de gases de efeito estufa, a recuperação da biodiversidade e a recomposição de áreas degradadas, três objetivos que integram compromissos ambientais internacionais assumidos há décadas. A combinação entre investimento em produção doméstica de fertilizantes e desenvolvimento de tecnologias biológicas de ponta é apresentada como caminho mais consistente para fortalecer a competitividade da agricultura brasileira no longo prazo, reduzindo dependência externa, aumentando a eficiência no uso de insumos e diminuindo o impacto climático da produção de alimentos.

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