Sementes ancestrais de milho são recuperadas em aldeias Avá Guarani no Oeste do Paraná

Resgate de um patrimônio agrícola e cultural
Variedades tradicionais de milho consideradas sagradas pelo povo Avá Guarani voltaram a germinar em áreas de retomada localizadas nos municípios de Guaíra e Terra Roxa, no Oeste do Paraná. O trabalho integra uma iniciativa de caráter acadêmico e comunitário que busca recuperar sementes historicamente cultivadas por essas comunidades, mas que haviam se perdido ao longo do tempo em razão dos deslocamentos territoriais e das transformações impostas às áreas ocupadas pelos indígenas.
A ação reúne pesquisadores, estudantes de pós-graduação e lideranças indígenas em um esforço conjunto para reconstituir práticas agrícolas ancestrais. Entre os pesquisadores envolvidos está Alberto Feiden, da Embrapa Pantanal, que atua também como professor em disciplinas do programa de doutorado em Desenvolvimento Rural Sustentável da Universidade Estadual do Oeste do Paraná (Unioeste).
Diagnóstico em aldeias de retomada
Entre os dias 13 e 15 de setembro, uma equipe formada por professores e alunos realizou um diagnóstico em nove aldeias de retomada Avá Guarani no estado do Paraná. A atividade atendeu a uma demanda do Centro de Apoio e Promoção da Agroecologia de Marechal Cândido Rondon, instituição que mantém projetos de apoio às comunidades indígenas da região.
Segundo Feiden, o diagnóstico revelou que diversas comunidades haviam perdido parte significativa de suas variedades agrícolas tradicionais, entre elas sementes de milho com valor sagrado. A constatação impulsionou o início de um processo de busca e reintrodução dessas variedades junto às aldeias.
A recuperação das variedades Saboró Branco e Saboró Preto
Duas variedades tradicionais, conhecidas como Saboró Branco e Saboró Preto, foram localizadas e reintroduzidas por meio de uma parceria entre a Embrapa Pantanal e o banco de sementes mantido pela escola indígena Jaguapiru, em Dourados, no Mato Grosso do Sul. A partir de uma única espiga da variedade Saboró Preto, foi possível produzir 60 novas espigas, já distribuídas a outros três agricultores das comunidades.
A expectativa é que, na próxima safra, essas sementes sejam multiplicadas em duas épocas distintas de plantio, estratégia adotada para reduzir riscos de perda provocados por eventos climáticos. O cultivo também será realizado em locais isolados, de modo a evitar contaminação por pólen de milho transgênico e por agrotóxicos utilizados em lavouras vizinhas.
Significado cultural e espiritual do milho
Para os Avá Guarani, o milho vai muito além de sua função alimentar. A variedade recuperada é utilizada em preparações como milho assado, pamonha, rorá, cozido, canjica e chicha, pratos que possuem forte valor simbólico e estão associados a rituais de espiritualidade das comunidades.
De acordo com Feiden, a presença dessas sementes nas aldeias está diretamente ligada à transmissão de conhecimentos entre gerações e à manutenção de práticas cerimoniais. O pesquisador destaca que o retorno das variedades tradicionais ultrapassa os limites da agricultura, contribuindo para a retomada de costumes fragilizados pelo histórico de deslocamento territorial.
Cuidados com a preservação genética
A iniciativa deu atenção especial à conservação genética das sementes recuperadas. O cultivo foi conduzido com estratégias de isolamento para minimizar riscos de contaminação por variedades transgênicas e por substâncias químicas empregadas em monoculturas situadas nas proximidades das aldeias.
Segundo Feiden, nenhuma instituição pública teve acesso direto às sementes, que permaneceram sob responsabilidade das próprias comunidades, cabendo aos pesquisadores apenas o papel de intermediação. A medida busca assegurar que as características originais das variedades sejam preservadas ao longo das futuras multiplicações.
Autonomia alimentar e manejo tradicional
O pesquisador afirma que a proteção das sementes também está relacionada à busca por autonomia alimentar. Ao produzir, selecionar e armazenar suas próprias variedades, as comunidades ampliam a capacidade de decidir o que plantar e consumir, reduzindo a dependência de sementes comerciais.
As sementes foram cultivadas na parte mais baixa da aldeia, onde a umidade é maior e a distância de lavouras convencionais é ampliada, reduzindo o risco de exposição a agrotóxicos. Durante o desenvolvimento das plantas, não foram registrados ataques de pragas, e os indivíduos alcançaram entre 1,80 e 2 metros de altura.
Colheita, conservação e próximos plantios
Após a colheita, as espigas foram mantidas despalhadas e penduradas sobre o fogão, método tradicional em que a fumaça auxilia na conservação dos grãos. O próximo passo da iniciativa é ampliar a produção, reduzindo riscos de perdas associadas a variações climáticas.
Para isso, estão previstos dois plantios em períodos distintos, ambos conduzidos conforme a fase da lua minguante, prática indicada pelo conhecimento tradicional para evitar o ataque de carunchos. Em cada etapa, serão utilizadas sementes de dez espigas, enquanto outras dez permanecerão como reserva.
Consórcio com outras culturas
O cultivo do milho tradicional também é realizado em sistema de consórcio com outras espécies, seguindo práticas agrícolas ancestrais. Uma das combinações adotadas é com o feijão-de-corda, cujas plantas utilizam o milho como suporte, mantendo as vagens afastadas do solo.
A mandioca é outra espécie frequentemente cultivada em conjunto com o milho, reforçando um sistema produtivo diversificado e adaptado às condições locais das aldeias.
Território, identidade e o Ñande Reko
Para o cacique Raúl Medina, da aldeia Tokoha YvY Raty Porã, a recuperação das sementes resgata também uma concepção de agricultura baseada na suficiência e na partilha. Segundo ele, o milho é cultivado prioritariamente para alimentar a comunidade e sustentar práticas culturais, e não como mercadoria voltada à acumulação.
O cacique destaca que essa perspectiva contrasta com a lógica da agricultura de larga escala predominante no entorno das aldeias. Para a cultura guarani, a terra deve ser usada de acordo com costumes tradicionais, e não como instrumento de acúmulo de riqueza.
Segundo Feiden, o processo de multiplicação das sementes amplia uma rede de compartilhamento entre as famílias. As espigas produzidas são distribuídas a outros agricultores, que passam a reproduzir a variedade e, futuramente, poderão repassá-la a novas famílias, criando um ciclo contínuo de conservação comunitária.
De acordo com o cacique, as variedades agrícolas carregam significados espirituais e rituais fundamentais para a reconstrução do Ñande Reko, expressão guarani que pode ser traduzida como o modo de vida tradicional do povo. A iniciativa reforça, assim, a relação entre agricultura, espiritualidade, território e identidade cultural das comunidades Avá Guarani no Oeste do Paraná.