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Sorgo ganha espaço no campo brasileiro impulsionado pela demanda chinesa

Por: Redação Valores Agro
17 de outubro de 2026
Sorgo ganha espaço no campo brasileiro impulsionado pela demanda chinesa

Um cereal que ganhou nova relevância

O sorgo, cereal originário de regiões da África e da Ásia, vem conquistando espaço crescente entre produtores brasileiros em razão de características agronômicas que o tornam particularmente adequado ao cenário atual de instabilidade climática. Mais resistente à seca, ao calor intenso e capaz de se desenvolver em solos de menor fertilidade, o grão pertence à mesma família botânica do milho e tem múltiplas aplicações, da produção de ração animal à fabricação de etanol.

Nos últimos meses, no entanto, um novo capítulo se abriu para essa cultura: a abertura do mercado chinês. A autorização para exportações ao país asiático havia sido concedida em 2024, mas os embarques efetivamente começaram apenas em agosto deste ano, criando uma demanda adicional relevante para o sorgo produzido no Brasil.

China se torna principal destino das exportações

Os números do comércio exterior evidenciam a rapidez com que a China assumiu protagonismo nesse mercado. Entre janeiro e setembro de 2026, o Brasil exportou 790 mil toneladas de sorgo, das quais 755,6 mil tiveram como destino justamente o mercado chinês. A concentração expressiva em um único comprador reforça a magnitude da mudança ocorrida no setor em um espaço de tempo relativamente curto.

Essa movimentação tem impacto direto na forma como produtores rurais passam a enxergar o cultivo, que até pouco tempo era destinado quase exclusivamente ao mercado interno, sobretudo para a produção de ração animal.

Produtores relatam ganhos de produtividade

Em Uberaba, no Triângulo Mineiro, o produtor rural Pedro Ottoni colhe neste ano cerca de 1,9 mil hectares de sorgo, cultivados durante a segunda safra em uma propriedade onde também são produzidos soja e milho. Segundo ele, a tolerância da cultura a condições climáticas adversas foi determinante para a decisão de investir no grão.

Ottoni afirma que a região tem enfrentado ondas de calor recorrentes durante o outono e o inverno, cenário em que o sorgo, por sua origem tropical, consegue manter desempenho produtivo mesmo sob estresse térmico e hídrico. Entre áreas irrigadas e de sequeiro, o produtor projeta produtividade média de 6 toneladas por hectare na safra 2025/26, o que representa alta de 42,8% em relação ao ciclo anterior, quando a estiagem mais severa reduziu o rendimento para 4,2 toneladas por hectare.

Os números alcançados por Ottoni superam a média nacional. Segundo a Companhia Nacional de Abastecimento, a produtividade do sorgo na safra 2025/26 ficou estimada em 3,39 toneladas por hectare em todo o país. Para o novo ciclo, 2026/27, a projeção da estatal é de 3,62 toneladas por hectare, alta de 6,7% em relação ao período anterior.

Área plantada e produção nacional em expansão

De acordo com as estimativas da Conab, a área destinada ao cultivo de sorgo deve crescer cerca de 2% na safra 2026/27, atingindo 2,21 milhões de hectares. O avanço, embora moderado, ocorre na sequência de um salto expressivo de 32,9% registrado na temporada anterior, o que indica consolidação do interesse pela cultura.

Com o aumento de área e de produtividade combinados, a produção nacional de sorgo deve alcançar 8,03 milhões de toneladas no novo ciclo, crescimento de 9% em relação à safra passada. O desempenho reforça a posição do Brasil como o segundo maior produtor mundial do cereal, atrás apenas dos Estados Unidos, em um ranking no qual o sorgo ocupa a quinta colocação entre os grãos mais produzidos no planeta.

Manejo exige atenção, mesmo com rusticidade do grão

Apesar da resistência natural da cultura a condições adversas, Ottoni, que também ocupa cargo de diretor na Aliança Internacional do Milho, a Maizall, pondera que o sorgo não dispensa cuidados técnicos. Segundo ele, o manejo adequado de adubação, o controle de plantas daninhas e o monitoramento de pragas continuam sendo fundamentais para garantir bons resultados produtivos.

Para a próxima safra, o produtor pretende manter a área cultivada, mas ampliar os investimentos em tecnologia, incluindo o uso de bioestimulantes, como forma de buscar ganhos adicionais de produtividade e, consequentemente, de retorno financeiro.

Exportação muda estratégia comercial dos produtores

Ottoni relata que cerca de 10% de sua produção atual já está direcionada ao mercado externo. Parte do volume foi comercializada com a trading Cofco, com destino à China, enquanto outro lote foi vendido a uma empresa que encaminharia a carga ao Irã. Até então, a produção do agricultor era destinada, em sua totalidade, à fabricação de ração animal.

A nova realidade do mercado, segundo ele, trouxe mais opções de comercialização. A partir de agora, a estratégia passa a ser vender para quem oferecer o melhor preço, seja no mercado interno ou no externo, aproveitando a maior competição entre compradores.

O presidente da Associação Brasileira dos Produtores de Milho, Paulo Bertolini, avalia que a chegada da demanda chinesa abriu uma perspectiva favorável para o sorgo, inclusive em termos de preço. Segundo ele, em algumas regiões, como o Estado de São Paulo, o valor do sorgo já se aproxima bastante do preço do milho.

Custo de produção mais baixo favorece competitividade

Em Itaberá, no interior de São Paulo, o agricultor Bernhard Kiep cultiva 800 hectares de sorgo em áreas de sequeiro e mais 200 hectares em sistema irrigado, durante a safra de verão. Ele relata que os valores de venda do cereal têm variado entre R$ 50 e R$ 60 por saca de 60 quilos.

Para efeito de comparação, o indicador do milho calculado pelo Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada estava cotado em R$ 65,59 por saca na terça-feira, dia 13 de outubro. A diferença mais relevante, no entanto, está no custo de produção: segundo Kiep, cultivar sorgo pode ser de 40% a 50% mais barato do que produzir milho, o que amplia a margem de rentabilidade mesmo com preços de venda inferiores.

O produtor afirma estar satisfeito com os resultados obtidos com a cultura, destacando que, nas áreas irrigadas, a produtividade pode se aproximar de 10 toneladas por hectare, patamar considerado elevado para o cereal.

Indústria de etanol também aposta no sorgo

Além do mercado de ração e das exportações, o sorgo também encontra espaço na produção de etanol. A Inpasa utiliza o cereal como matéria-prima e trabalha com contratos futuros que oferecem previsibilidade de receita ao produtor rural, permitindo o fechamento da venda antes mesmo da colheita.

Segundo Irineo Piaia Junior, gerente regional da empresa, o sorgo é visto como uma oportunidade importante para complementar a área de cultivo do produtor rural. Os contratos antecipados, com preço já estabelecido, permitem que o agricultor também trave seus custos de produção com maior segurança.

Na unidade de processamento localizada em Balsas, no Maranhão, a capacidade de processamento para a produção de biocombustível chega a 2 milhões de toneladas por ano. De acordo com o executivo, não há um volume fixo predeterminado entre sorgo e milho utilizados na produção, já que essa proporção varia conforme disponibilidade e condições de mercado.

Mesmo diante do avanço das exportações para a China, Piaia Junior acredita que o mercado é soberano e que haverá oferta suficiente, a preços competitivos, tanto para atender a demanda interna quanto para sustentar os embarques internacionais. Essa visão é compartilhada por outros agentes do setor, que observam no sorgo uma cultura capaz de se adaptar tanto às exigências climáticas quanto às novas oportunidades comerciais que se abrem no cenário internacional.

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