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Emissões de CRA aceleram em agosto, mas seguem distantes do patamar de 2025

Por: Redação Valores Agro
15 de outubro de 2026
Emissões de CRA aceleram em agosto, mas seguem distantes do patamar de 2025

Melhor mês do ano para as emissões

O mercado de Certificados de Recebíveis do Agronegócio (CRA) registrou em agosto o maior volume mensal de emissões de 2026. Levantamento da empresa de tecnologia de inteligência e análise de investimentos Quantum Finance mostra que as novas operações somaram R$ 2,41 bilhões no período, valor superior ao de todos os demais meses do ano corrente.

Apesar da melhora na comparação mensal, o montante ainda é bastante inferior ao registrado em agosto de 2025, quando as emissões alcançaram R$ 6,65 bilhões. A diferença representa uma retração de 63,8% na comparação anual, reforçando que o mercado ainda opera em ritmo mais contido do que no ano anterior.

Queda acumulada no ano

No acumulado entre janeiro e agosto, as emissões de CRA somaram R$ 10,22 bilhões, ante R$ 22,33 bilhões no mesmo intervalo de 2025. O recuo de 54,2% evidencia que a desaceleração não se limita a um mês isolado, mas reflete uma tendência que se consolidou ao longo de todo o período.

De acordo com a consultoria Zera, a retração nas novas operações ocorre em um ambiente de maior seletividade no mercado de crédito. Empresas e investidores passaram a avaliar com mais cautela elementos como custo de captação, qualidade do risco, estrutura das operações e liquidez dos títulos antes de decidir pela emissão ou aquisição de novos papéis.

O componente regulatório

Além do cenário mais seletivo, o movimento tem explicação em mudanças regulatórias recentes. A fundadora da Zera, Amanda Coura, destaca a importância de separar a análise específica do CRA da discussão mais ampla sobre o papel do mercado de capitais no financiamento do agronegócio.

Segundo ela, o CRA passou por uma alteração regulatória relevante em 2025, com a publicação da Resolução CMN nº 5.212, que restringiu o universo de empresas elegíveis a utilizar o instrumento. A medida teve como objetivo aproximar novamente o uso do CRA de sua finalidade original, mas, como efeito colateral, reduziu o número potencial de emissores.

Essa restrição, segundo a executiva, ajuda a explicar parte da desaceleração observada nas novas operações ao longo de 2026. A resolução, publicada em maio de 2025, preservou as ofertas que já haviam sido protocoladas até aquela data, o que permitiu que as emissões seguissem em ritmo forte no restante do ano passado.

Os dados da Quantum Finance mostram que, entre junho e dezembro de 2025, as emissões somaram R$ 32,29 bilhões, volume expressivo que contrasta com a retração concentrada especificamente em 2026. Esse padrão indica que o efeito da mudança normativa se manifestou de forma mais clara após o esgotamento das ofertas protocoladas antes da nova regra entrar em vigor.

Estoque segue estável e próximo do pico

O estoque de CRA somou R$ 174,95 bilhões ao final de agosto de 2026, valor 7,5% superior aos R$ 162,78 bilhões registrados um ano antes. Ao longo de 2026, o saldo se manteve relativamente estável, próximo ao pico histórico de R$ 178,39 bilhões alcançado em dezembro de 2025.

Em agosto, o estoque apresentou leve alta na comparação com julho, sinalizando que, mesmo com a desaceleração nas novas emissões, o volume total de títulos em circulação não sofreu redução expressiva. Esse comportamento sugere que o mercado tem conseguido sustentar o patamar de recursos alocados em CRA, ainda que a dinâmica de novas operações tenha se tornado mais lenta.

Mercado secundário mantém atividade

No mercado secundário, o volume negociado com CRA somou R$ 6,63 bilhões em agosto. No acumulado entre janeiro e julho, os negócios totalizaram R$ 51,72 bilhões, alta de 4,2% sobre os R$ 49,66 bilhões apurados no mesmo período de 2025. A média mensal de 2026 está em R$ 7,29 bilhões.

Para a Zera, os números indicam que a desaceleração nas emissões não se traduziu em retração da negociação dos títulos já em circulação. Segundo a consultoria, o mercado secundário segue ativo mesmo diante de menor originação, o que reforça a liquidez dos papéis já existentes no mercado.

Outros instrumentos ganham espaço

Para a fundadora da Zera, a leitura sobre o financiamento do agronegócio muda quando a análise se amplia para além do CRA. Segundo ela, 2025 também foi marcado por uma evolução importante na regulamentação dos Fiagro, com a entrada em vigor, em março daquele ano, da Resolução CVM nº 214.

A nova norma trouxe maior flexibilidade para esses veículos e ampliou as possibilidades de alocação em diferentes ativos ligados à cadeia do agronegócio, incluindo CPR física e financeira. Na prática, segundo Coura, a regulamentação ampliou as alternativas para que o capital dos investidores chegue ao setor por estruturas diferentes do CRA.

Por isso, quando a análise considera o mercado de capitais como um todo, o cenário se mostra distinto daquele observado isoladamente no CRA. Os Fiagros vêm ganhando espaço desde sua criação e regulamentação, em 2021, e atingiram em 2026 volumes recordes de emissão, segundo a executiva.

CPR supera estoque de LCA pela primeira vez

A Cédula de Produto Rural (CPR) também apresenta crescimento expressivo. Em agosto deste ano, seu estoque chegou a aproximadamente R$ 600 bilhões e, pela primeira vez, superou o estoque de LCA, instrumento bancário historicamente consolidado no financiamento do agronegócio.

Segundo dados oficiais do Boletim de Finanças Privadas do Agro, do Ministério da Agricultura e Pecuária, o estoque de CPR somou R$ 600,3 bilhões em agosto de 2026, ante R$ 561,29 bilhões em LCA. Para a Zera, o movimento evidencia uma mudança na composição dos instrumentos utilizados pelo setor: o CRA continua relevante, mas Fiagro, CPR e outras estruturas vêm ganhando participação e oferecendo novas alternativas de funding para produtores e empresas da cadeia.

Nos Fiagros, as ofertas somaram R$ 9,9 bilhões entre janeiro e agosto, segundo dados da Anbima. O valor já supera os R$ 8,85 bilhões captados em todo o ano de 2023, até então recorde anual da indústria, reforçando a trajetória de expansão desses fundos.

Ranking de negociações no mercado secundário

O levantamento também identificou quais CRAs concentraram os maiores volumes financeiros e o maior número de negócios em agosto. Para a Zera, a comparação entre os dois rankings evidencia que volume financeiro e frequência de negociação representam dimensões distintas de liquidez.

No ranking por volume financeiro, o título CRA0240066A, da Camil, liderou com R$ 217,7 milhões negociados no mês. No ranking por número de negócios, o mesmo papel também ocupou a primeira posição, com 3.180 operações registradas.

Segundo a consultoria, a presença de empresas como Camil, Minerva, São Martinho, Seara e Usina Batatais entre os títulos mais negociados reforça a diversidade de emissores que compõem o mercado de CRA. Os dez títulos com maior volume financeiro somaram R$ 1,29 bilhão em agosto, o equivalente a cerca de 19,5% do total negociado no mês, o que indica liquidez distribuída entre diferentes papéis.

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