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Participação feminina no agro brasileiro cresce e ganha espaço na gestão de propriedades

Por: Redação Valores Agro
15 de outubro de 2026
Participação feminina no agro brasileiro cresce e ganha espaço na gestão de propriedades

Uma data para reconhecer o papel das mulheres no campo

No dia 15 de outubro é celebrado o Dia Internacional das Mulheres Rurais, data instituída pela Organização das Nações Unidas (ONU) com o objetivo de reconhecer a contribuição feminina para o desenvolvimento agrícola e para a segurança alimentar em todo o mundo. A efeméride serve como ponto de partida para uma discussão mais ampla sobre a presença das mulheres em um dos setores mais relevantes da economia brasileira, tanto na produção quanto na gestão de propriedades e negócios ligados ao campo.

Historicamente, as decisões estratégicas relacionadas ao campesinato, às empresas do setor e ao gerenciamento diário das lavouras estiveram concentradas majoritariamente em mãos masculinas. Esse cenário, no entanto, vem se transformando de forma gradual, ainda que de maneira menos visível do que outras mudanças ocorridas no agronegócio nas últimas décadas, como a incorporação de tecnologia e a profissionalização da gestão.

O agro como pilar estratégico e a mudança silenciosa em sua estrutura

O agronegócio ocupa posição central na economia nacional e desempenha papel estratégico na segurança alimentar global. Nos últimos anos, o setor passou por uma reconfiguração expressiva, impulsionada pelo avanço tecnológico, por novas práticas de gestão e por processos de inovação que elevaram a complexidade das operações em todas as etapas da cadeia produtiva.

Paralelamente a essa transformação mais evidente, ocorre outra mudança, de caráter mais discreto, mas igualmente relevante: o aumento da presença feminina em posições de comando. Não se trata apenas da atuação em atividades administrativas de escritórios ou sedes corporativas, mas da liderança direta de equipes, propriedades e áreas estratégicas dentro de empresas do setor.

O que mostram os números do mercado de trabalho

De acordo com o Boletim Mercado de Trabalho do Agronegócio, elaborado pelo Cepea (Esalq/USP) em parceria com a CNA, as mulheres somavam cerca de 10,9 milhões dos 28,6 milhões de trabalhadores do agro brasileiro no terceiro trimestre de 2025, o equivalente a aproximadamente 38% do total de ocupados no setor.

O levantamento aponta ainda que, no acumulado de 2025, o contingente feminino no agronegócio cresceu 2,6%, um incremento de 278 mil trabalhadoras em relação ao período anterior. Esse ritmo de expansão superou o registrado entre os homens, cuja alta foi de 1,9% no mesmo intervalo, indicando um avanço proporcionalmente mais acelerado da presença feminina no mercado de trabalho rural.

Mesmo em momentos de retração do mercado, o comportamento da força de trabalho feminina chamou atenção. No primeiro trimestre de 2026, quando o setor registrou perda de 267 mil postos de trabalho, a queda entre as mulheres foi de 0,5%, bem inferior à redução observada entre os homens, de 1,2% no mesmo período. O dado sugere maior resiliência da ocupação feminina diante de oscilações conjunturais do mercado de trabalho agropecuário.

Avanço mais lento na gestão de propriedades rurais

Enquanto a participação feminina no mercado de trabalho avança de forma consistente, o movimento observado na direção de estabelecimentos rurais segue um ritmo mais lento, embora também ascendente. Segundo o Censo Agropecuário de 2017, do IBGE, o levantamento mais recente disponível sobre o tema, 946 mil mulheres dirigiam estabelecimentos rurais no Brasil, enquanto outras 817 mil compartilhavam a direção dessas propriedades com o cônjuge.

A evolução histórica reforça essa tendência de crescimento gradual. A participação feminina no comando de estabelecimentos rurais passou de 12,7%, em 2006, para 18,7%, em 2017, segundo os dados do próprio Censo Agropecuário. O intervalo entre os dois levantamentos evidencia um avanço real, ainda que distante da equidade entre os gêneros na liderança das propriedades.

Em termos de área, as mulheres administravam, de forma individual ou compartilhada, cerca de 30 milhões de hectares no país, o que representa 8,5% da área total ocupada por estabelecimentos agropecuários. Esse percentual indica que a presença feminina na gestão rural tende a se concentrar, proporcionalmente, em propriedades de menor extensão territorial.

Presença feminina também cresce no relacionamento com o setor financeiro

O avanço da participação das mulheres no agronegócio também se reflete no relacionamento com instituições financeiras que atendem o setor. No Banco do Brasil, as mulheres representavam 37% do total de clientes vinculados ao agro em setembro de 2025, o equivalente a 732 mil pessoas de um universo de aproximadamente 2 milhões de clientes atendidos pela instituição no segmento.

Esse dado reforça a tendência observada em outras frentes: a participação feminina não se limita à execução de atividades operacionais, mas se estende também à gestão financeira e ao acesso a crédito e serviços bancários voltados à produção rural, elementos fundamentais para o planejamento e a sustentabilidade dos negócios no campo.

Capacidade de gestão e diversidade de liderança no agronegócio

A capacidade de conduzir uma propriedade rural, uma cooperativa ou uma empresa agroindustrial está diretamente relacionada ao preparo técnico, à visão estratégica e à habilidade de tomar decisões em cenários complexos, características que independem de gênero. Nesse sentido, a diversidade nas lideranças tende a fortalecer a governança dos negócios, ampliando resultados e estimulando processos de inovação dentro das organizações.

O agronegócio, como um dos pilares centrais da economia brasileira, tem acompanhado esse movimento de ampliação da participação feminina em posições de comando. A valorização de competências que contribuem para a governança e para a sustentabilidade dos negócios passa, cada vez mais, pelo reconhecimento da contribuição das mulheres em diferentes elos da cadeia produtiva.

Novos modelos de gestão e o futuro do setor

Mais do que ocupar espaços antes restritos, as mulheres têm contribuído para redefinir práticas de liderança dentro do agronegócio. Modelos de gestão baseados em planejamento, colaboração, organização e desenvolvimento de equipes vêm ganhando espaço e agregando valor tanto a propriedades rurais quanto a empresas vinculadas ao setor.

O resultado observado é um ambiente de trabalho mais profissionalizado e mais preparado para lidar com os desafios de um setor que se torna progressivamente mais complexo e globalizado. A ampliação da participação feminina, nesse contexto, não representa apenas uma mudança demográfica, mas um fator que se relaciona diretamente ao próprio desenvolvimento e à competitividade do agronegócio brasileiro nos próximos anos.

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