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Exportadores paraguaios de grãos enfrentam pressão cambial e efeitos do El Niño

Por: Redação Valores Agro
13 de outubro de 2026
Exportadores paraguaios de grãos enfrentam pressão cambial e efeitos do El Niño

Dólar em queda pressiona competitividade do setor

O setor agroexportador paraguaio de cereais e oleaginosas atravessa um momento de forte incerteza cambial, com a cotação do dólar mantida abaixo de G. 6.000 ao longo das últimas semanas. Essa depreciação sustentada da moeda norte-americana frente ao guarani tem gerado preocupação entre produtores e exportadores, que dependem diretamente da relação cambial para sustentar sua rentabilidade.

De acordo com o diretor executivo da Câmara Paraguaia de Exportadores e Comercializadores de Cereais e Oleaginosas (Capeco), Hugo Pastore, a queda constante do tipo de câmbio afeta diretamente a eficiência e a competitividade do setor. Como os embarques são cotados e pagos em dólares, qualquer redução no valor da moeda americana reduz proporcionalmente a capacidad de cobrir os custos operacionais que são, em sua maioria, denominados em moeda local.

Pastore explicou que essa dinâmica cria um descompasso entre receitas e despesas. Enquanto os ingressos das exportações seguem atrelados ao dólar, os gastos com transporte, logística, fretes, salários e serviços públicos e privados são pagos em guaranis, moeda que vem se valorizando de forma persistente nos últimos meses.

Custos operacionais sob pressão

Segundo o representante da Capeco, a situação cambial tem impacto direto sobre decisões estratégicas tomadas pelos produtores e exportadores durante o período de desenvolvimento das lavouras. Contratos com prestadores de serviços, planejamento logístico e previsão de margens tornam-se mais complexos diante da volatilidade do câmbio.

Pastore destacou que o setor vive atualmente um momento crucial do ciclo produtivo, no qual decisões sobre tratos culturais, contratação de frete e negociação de insumos precisam considerar um cenário cambial instável. Essa imprevisibilidade dificulta o planejamento de médio prazo das empresas exportadoras, que historicamente utilizam o dólar como referência para projetar custos e receitas.

A perda de competitividade mencionada pelo dirigente da Capeco está diretamente relacionada à comparação com outros países exportadores de grãos, cujas moedas locais podem apresentar comportamento distinto frente ao dólar. Quando o guarani se valoriza de forma isolada, o Paraguai corre o risco de perder margem relativa frente a concorrentes internacionais no mesmo segmento de commodities agrícolas.

Recomendações ao governo para atenuar a tendência

Diante desse cenário, o dirigente da Capeco apresentou sugestões ao governo nacional, baseadas em recomendações de economistas que acompanham o comportamento do câmbio. Uma das propostas é a redução na emissão de novos títulos em moeda nacional, medida que, segundo analistas consultados pelo setor, poderia ajudar a conter parte da pressão sobre a valorização do guarani.

Outra recomendação envolve a análise da diferença entre a taxa de juros de referência do Banco Central do Paraguai (BCP) e as taxas praticadas pelo mercado financeiro para concessão de empréstimos. Pastore ressaltou que uma revisão dessa diferença poderia contribuir para dar maior previsibilidade ao mercado cambial, ainda que reconheça que não existe uma solução simples para reverter completamente a tendência observada nos últimos meses.

O dirigente reforçou que qualquer estratégia capaz de atenuar a volatilidade cambial seria bem-vinda pelo setor exportador, que busca mais estabilidade para tomar decisões de investimento e negociação de contratos no exterior.

El Niño traz chuvas intensas e desafios ao manejo das lavouras

Paralelamente à questão cambial, o setor também enfrenta os efeitos do fenômeno climático El Niño, que provocou intensificação das chuvas a partir de outubro. Segundo Pastore, as precipitações acumuladas em regiões do sul do país, como o departamento de Itapúa, atingiram volumes significativos neste período do ano.

Até o momento, o dirigente da Capeco afirmou que não há registros de danos diretos e concretos sobre as lavouras em decorrência do excesso de chuvas. No entanto, o setor depende de janelas contínuas de sol para viabilizar o processo de secagem dos campos, etapa fundamental para a realização de tratamentos fitossanitários no momento adequado.

A ausência de períodos secos mais prolongados dificulta o manejo das culturas, uma vez que a aplicação de defensivos e outros tratamentos exige condições específicas de umidade do solo. Esse cenário climático, somado à instabilidade cambial, amplia a complexidade da gestão produtiva durante a atual safra.

Congestionamento logístico na exportação para o Brasil

Além dos desafios climáticos e cambiais, o setor exportador paraguaio enfrenta um momento crítico de infraestrutura logística durante o período de maior volume de embarques destinados ao mercado brasileiro. De acordo com Pastore, a demanda por escoamento supera a capacidade atual disponível nos principais corredores de exportação.

Essa sobrecarga tem gerado longas filas de caminhões nas rotas de acesso e congestionamento nos recintos portuários, situação que se agrava especialmente em dias de feriado, quando a operação de determinados postos de controle é reduzida ou suspensa.

O represamento de cargas nas fronteiras impacta diretamente o cronograma de embarques e pode gerar custos adicionais relacionados ao tempo de espera dos veículos, além de pressionar ainda mais a já apertada margem operacional das empresas exportadoras.

Gestões institucionais para contingenciar a logística

Para enfrentar a situação, a Capeco mantém diálogo permanente com autoridades nacionais e internacionais responsáveis pela infraestrutura de exportação. Entre os órgãos envolvidos estão a Administração Nacional de Navegação e Portos (ANNP), a Aduana paraguaia, o Serviço Nacional de Qualidade e Sanidade Vegetal e de Sementes (Senave), a Receita Federal do Brasil e o Ministério da Agricultura brasileiro.

Entre as medidas de contingência discutidas está a habilitação extraordinária de passagens fronteiriças durante feriados, de forma a reduzir o acúmulo de veículos aguardando liberação. Também está em avaliação a abertura do Ponte da Integração para o trânsito de grãos, alternativa que poderia aliviar parte da pressão sobre os corredores logísticos atualmente mais utilizados.

Segundo o dirigente da Capeco, essas tratativas buscam garantir que o fluxo de exportação para o Brasil não seja comprometido durante o período de pico, evitando perdas adicionais em um momento já marcado por desafios cambiais e climáticos. A entidade avalia que a combinação de medidas de infraestrutura e diálogo institucional é essencial para preservar a competitividade do setor diante de um cenário externo cada vez mais exigente.

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