pecuária

Genoma de tartaruga de 194 anos revela pistas sobre longevidade extrema

Por: Redação Valores Agro
12 de outubro de 2026
Genoma de tartaruga de 194 anos revela pistas sobre longevidade extrema

Um animal centenário sob investigação científica

Uma tartaruga-gigante que vive há quase dois séculos tornou-se objeto de um estudo genético que busca entender os mecanismos biológicos por trás do envelhecimento lento. O animal, batizado de Jonathan, tem idade estimada em 194 anos e é reconhecido pelo Guinness World Records como o mais velho animal terrestre vivo do planeta.

A pesquisa, publicada na revista científica Science Advances em outubro de 2026, analisou o genoma e o epigenoma do animal em busca de características que possam explicar sua longevidade excepcional. Os resultados apontam para variantes genéticas específicas e padrões de regulação que chamam atenção da comunidade científica.

A história de Jonathan na ilha de Santa Helena

Jonathan pertence à espécie Aldabrachelys gigantea, conhecida popularmente como tartaruga-gigante-de-Aldabra. O animal vive desde 1882 na ilha de Santa Helena, território britânico localizado no Atlântico Sul, para onde foi levado quando já era adulto.

Como não há registro exato de seu nascimento, os pesquisadores utilizaram documentos históricos para estimar que o animal tenha vindo ao mundo por volta de 1832. Essa estimativa sustenta a idade aproximada de 194 anos atribuída a Jonathan atualmente, tornando-o um caso raro para estudos sobre envelhecimento em vertebrados.

O que o genoma de Jonathan revelou

Para investigar as bases genéticas da longevidade, a equipe de pesquisadores analisou o genoma do animal, conjunto de informações genéticas que orienta o funcionamento do organismo. A análise identificou 287 genes com variantes genéticas únicas em Jonathan, quando comparados às sequências de referência utilizadas no estudo.

Parte dessas variantes está relacionada a vias biológicas associadas ao reparo do DNA, à regulação de processos inflamatórios e à supressão de tumores. Esses mecanismos têm relevância direta para a ciência do envelhecimento, já que falhas nesses processos costumam estar associadas ao acúmulo de danos celulares ao longo da vida.

Outras variantes identificadas estão ligadas à regulação da insulina, ao funcionamento das mitocôndrias e à manutenção dos telômeros, estruturas que protegem as extremidades dos cromossomos. Ainda assim, os pesquisadores destacam que a presença dessas variantes não comprova, isoladamente, que elas sejam responsáveis pela longevidade do animal.

Epigenoma e os padrões de metilação

Além do genoma, o estudo avaliou o epigenoma de Jonathan, conjunto de marcas químicas que regula a atividade dos genes sem alterar a sequência do DNA. Essa análise incluiu a metilação, processo que participa da regulação genética, e a chamada entropia de metilação, medida que indica o grau de desorganização desses padrões em determinadas regiões do genoma.

De forma geral, o envelhecimento costuma estar associado a alterações nos padrões epigenéticos. No caso de Jonathan, os pesquisadores observaram que grande parte do genoma apresenta mudanças compatíveis com a idade avançada do animal.

Por outro lado, algumas regiões específicas mantêm padrões relativamente organizados, resultado que surpreendeu parte da equipe responsável pelo estudo. Foram identificadas 272 regiões promotoras com baixa entropia de metilação, associadas à regulação da atividade genética em áreas ligadas à produção de energia mitocondrial, ao processamento do RNA e à manutenção do material genético.

Mitocôndrias e produção de energia celular

As mitocôndrias são estruturas responsáveis por produzir grande parte da energia utilizada pelas células, sendo fundamentais para a manutenção dos tecidos e para diversas funções metabólicas do organismo. O funcionamento adequado dessas estruturas é frequentemente estudado em pesquisas sobre envelhecimento.

No caso de Jonathan, os pesquisadores encontraram uma associação entre as regiões com baixa entropia de metilação e genes relacionados à produção de energia mitocondrial. Esse padrão pode ajudar a explicar como determinadas funções celulares permanecem reguladas ao longo de décadas de vida.

O estudo também relaciona essas regiões a genes envolvidos no processamento do RNA e na manutenção do DNA e dos telômeros, reforçando a hipótese de que a regulação estável de certos genes pode contribuir para a preservação das células durante períodos prolongados.

Limitações da pesquisa

Apesar dos resultados, os pesquisadores destacam limitações importantes no estudo. A comparação do epigenoma de Jonathan foi feita com apenas outras quatro tartarugas-gigantes de diferentes idades, o que impede afirmar que as características observadas sejam comuns a todos os indivíduos longevos da espécie.

Além disso, é necessário diferenciar as particularidades genéticas individuais de Jonathan dos mecanismos que efetivamente podem influenciar sua longevidade. Fatores ambientais, condições de vida e variações individuais também podem ter papel relevante na sobrevivência prolongada do animal.

Possíveis caminhos para novas pesquisas

O interesse científico em torno de Jonathan ultrapassa sua idade recorde. Ao estudar espécies que vivem por períodos muito superiores à média observada em outros animais, pesquisadores buscam compreender como certos organismos conseguem preservar funções celulares essenciais ao longo do tempo.

Os resultados obtidos podem orientar futuras investigações sobre reparo do DNA, metabolismo energético, regulação genética e manutenção dos telômeros, temas também estudados em razão de sua relação com o envelhecimento humano e com doenças associadas à idade avançada.

Ainda assim, os autores do estudo ressaltam que a pesquisa não apresenta um método para retardar o envelhecimento humano. Qualquer aplicação prática dependerá de novos estudos, testes adicionais e comprovação de segurança e eficácia, processo que costuma levar anos na ciência biomédica.

Contribuição para o conhecimento científico

Por ora, a principal contribuição do trabalho está em ampliar a compreensão sobre os processos biológicos que podem favorecer a longevidade em determinadas espécies. Identificar um mecanismo associado à manutenção celular não significa que ele possa ser reproduzido em outros organismos, incluindo seres humanos.

Novos estudos envolvendo outras tartarugas-gigantes e espécies com vida longa poderão ajudar a esclarecer se os padrões encontrados em Jonathan representam uma característica comum a animais longevos ou uma particularidade individual, abrindo caminho para pesquisas futuras sobre o tema.

Pecuária

Página 1

Nenhuma notícia encontrada nesta categoria.