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Nova espécie de peixe é identificada em riachos do Amapá e levanta alerta ambiental

Por: Redação Valores Agro
13 de outubro de 2026
Nova espécie de peixe é identificada em riachos do Amapá e levanta alerta ambiental

Descoberta amplia conhecimento sobre a fauna amazônica

Um grupo de pesquisadores brasileiros e internacionais identificou uma nova espécie de peixe em riachos do município de Laranjal do Jari, no sul do Amapá. O animal, batizado de Laimosemion laranja, chamou atenção por sua coloração vibrante e passou a integrar o conjunto de espécies da família Rivulidae já catalogadas no estado.

Com essa descoberta, o número de representantes dessa família registrados no Amapá subiu para seis, segundo o levantamento que fundamentou o estudo. O resultado reforça a percepção de que ainda existem lacunas significativas no conhecimento sobre a biodiversidade aquática da região amazônica, especialmente entre espécies de pequeno porte que habitam ambientes de difícil acesso.

A pesquisa foi conduzida por cientistas da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, da Universidade Federal do Pará, do Instituto Peixe das Nuvens e da Universidade do Oeste da Flórida. A descrição formal da nova espécie foi publicada em agosto de 2026 na revista científica Zoosystematics and Evolution, consolidando anos de trabalho de campo e análises laboratoriais.

Encontro inesperado durante expedição científica

O achado ocorreu de forma não planejada. A equipe realizava um levantamento voltado a peixes da família Poeciliidae, conhecidos popularmente como barrigudinhos, quando se deparou com um exemplar de coloração incomum em uma das localidades visitadas no sul do Amapá.

Segundo o biólogo Yuri Abrantes, pesquisador da UFRN, o encontro surpreendeu o grupo. “Estávamos realizando um estudo com foco em outros peixes da família Poeciliidae, popularmente conhecidos como ‘barrigudinhos’. Ao visitar uma das localidades-alvo, no sul do estado do Amapá, encontramos esse peixe com seu exuberante colorido, o que foi algo inédito para nós”, relatou o pesquisador.

Os exemplares que fundamentaram a descrição científica foram coletados em expedições realizadas em 2024 e 2025. O indivíduo escolhido como referência formal da espécie, conhecido como holótipo, é um macho de 26,8 milímetros, capturado em junho de 2025 no Igarapé Massaranduba, na bacia do Rio Cajari.

Medidas, características e métodos de identificação

De acordo com os dados reunidos pela equipe, o maior macho analisado apresentou 27,8 milímetros de comprimento padrão, medida que desconsidera a nadadeira caudal. Já a maior fêmea registrada chegou a 20,6 milímetros, evidenciando o pequeno porte típico desse grupo de peixes de riacho.

Para confirmar que se tratava de uma espécie ainda não descrita, os cientistas combinaram análises genéticas com observações morfológicas detalhadas. Foram avaliados aspectos como coloração, disposição das escamas, raios das nadadeiras e estruturas ósseas, permitindo comparações precisas com espécies próximas.

“A combinação entre informações obtidas do DNA mitocondrial e características morfológicas reúne as principais evidências que tornam L. laranja uma nova espécie”, explicou Abrantes. As diferenças genéticas identificadas foram de 5,3% em relação a Laimosemion agilae e Laimosemion strigatus, 9,2% na comparação com L. dibaphus e 12,3% em relação a L. geayi, índices considerados relevantes para sustentar a distinção taxonômica.

Origem do nome e padrão de coloração

O nome científico escolhido faz referência direta ao padrão visual da espécie. Os machos exibem fileiras de pontos alaranjados na parte anterior do corpo, além de faixas inclinadas da mesma tonalidade na região posterior, características que se destacam entre os demais peixes da família.

Segundo Abrantes, a denominação carrega duas homenagens. “O nome Laranja é um epíteto específico com duas alusões: a primeira faz referência ao lindo padrão de colorido laranja que os machos da espécie exibem. Já a segunda é uma homenagem à cidade de Laranjal do Jari, no sul do Amapá, onde a localidade-tipo da espécie está situada”, afirmou o pesquisador.

A escolha reforça também a ligação entre a descoberta científica e o território onde ela ocorreu, destacando a relevância do município amapaense para estudos sobre biodiversidade aquática na região amazônica.

Habitat restrito e sinais de degradação ambiental

Até o momento, todos os registros conhecidos do Laimosemion laranja estão concentrados em três localidades de Laranjal do Jari. Os exemplares foram encontrados em poças próximas a riachos, em áreas florestadas, com profundidades que variam entre 0,5 e 1 metro.

Durante as expedições de campo, a equipe observou sinais evidentes de degradação ambiental nos pontos de coleta, incluindo desmatamento, árvores queimadas e áreas impactadas por atividades de mineração. Em uma das localidades, moradores relataram que as poças analisadas seriam resultado de garimpo, com água apresentando coloração avermelhada e alta concentração de partículas em suspensão.

Em outro ponto, situado dentro da própria cidade, os pesquisadores registraram perda de habitat associada à expansão urbana, além de poluição causada pelo descarte de plástico. Esses fatores reforçam a preocupação em torno da conservação da espécie recém-descrita.

Classificação de risco e recomendações para conservação

Com base nos dados coletados, os cientistas calcularam uma extensão de ocorrência de 25 km² e uma área de ocupação de 12 km² para a espécie. Diante da distribuição geográfica restrita e da degradação observada nos ambientes estudados, os pesquisadores propuseram a classificação do Laimosemion laranja como “Em Perigo”, seguindo os critérios estabelecidos pela União Internacional para a Conservação da Natureza.

“Em nossos estudos de campo, verificamos que Laimosemion laranja pode ser classificado como ‘em perigo de extinção’, principalmente devido à distribuição geográfica restrita e ao declínio de habitat. Neste último caso, a expansão urbana e o garimpo são apontados como os principais fatores de ameaça”, afirmou Abrantes.

Uma das localidades de ocorrência está situada na borda da Reserva Extrativista do Rio Cajari. Embora a equipe não tenha realizado coletas dentro da unidade de conservação, os pesquisadores consideram possível que a espécie também habite esse território, o que abre espaço para novas investigações.

Por esse motivo, o estudo recomenda a realização de novas expedições dentro e fora dos limites da reserva, com o objetivo de mapear com mais precisão a distribuição da espécie e subsidiar eventuais medidas de proteção, incluindo a possibilidade de ampliação da área protegida. Os resultados também poderão contribuir para o Plano de Ação Nacional para a Conservação dos Peixes Rivulídeos Ameaçados de Extinção, conduzido pelo CEPTA-ICMBio.

“Isso nos ajudará a conhecer melhor a diversidade ictiofaunística ainda subamostrada da Amazônia, bem como a nortear ações para evitar a perda das áreas úmidas onde esses organismos habitam”, destacou Abrantes, reforçando a importância de ampliar os estudos sobre peixes de pequeno porte na região.

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